Pesquisa sugere que humanos não são geneticamente propensos a guerra, apesar de tudo

24 jul

Edward Wilson, precursor do campo da sociobiologia, escreveu um vez que “a guerra está imersa em nossa propria natureza”. Isso é uma crença comumente aceita não somente pelos sociobiologistas, mas também por antropologistas e outros cientistas do comportamento humano. Eles se baseiam não somente na propensão dos seres humanos modernos em guerrearem com seus vizinhos (e, é claro, com metade das pessoas ao redor do mundo, se for dada a chance), mas também através da observação de grupos que ainda possuem um estilo de vida “caçador-coletor”.

Adicione para esse campo os estudos sobre o comportamento as vezes violento dos parentes mais próximos dos humanos, os chimpanzés – e a ideia de que fazer guerra está de algum modo incrustado nos genes humanos parece relativamente plausível. Esse comportamento serviu como explicação de altruísmo extremo (autossacrifício) exibido por pessoas (se uma tribo vizinha está prestes a exterminar a sua, desistir de sua propria vida para salvar seus companheiros pode ter um sentido evolutivo).

Mas um artigo publicado na revista Science, feito por Douglas Fry e Patrik Soderberg, da Universidade Abo Akademi, na Finlandia, questiona tudo isso. Dr. Fry e Sr. Soderberg reviram o que se é conhecido como “caçadores-coletores modernos”. Eles sugerem que embora tais pessoas estão longe de ter uma vida pacífica, também estão longe de uma vida bélica. A maioria daqueles que sofre morte violenta dentro de sua sociedade sofre pelas mãos dos próprios integrantes da tribo, não por “estrangeiros”. Os humanos podem ser muitas vezes assassinos, mas não guerreiros sanguinários prontos a morrer por uma causa como diz a lenda antropológica.

Dr. Fry e Sr. Soderberg chegaram a essa conclusão através do estudo de 21 sociedades caçadoras-coletoras em todo o mundo. Eles analisaram estudos etnográficos publicados ao longo de 100 anos ou mais. Entre outras coisas, os estudos continham dados de homicídios e suas circustâncias.

Os dois pesquisadores classificaram tais mortes em eventos interpessoais (modernamente denominada de “domésticos”), rixas entre famílias, execuções pelo próprio grupo e eventos intergrupos. Somente o último poderia ser descrito como um evento de guerra.

Um dos 21 grupos tinha uma característica guerreira. Mais da metade das mortes causadas pelo Tiwi, um povo australiano, era devido a atos de guerra – e quase metade de todos os homicídios de todas as causas de morte em todos os 21 grupos envolviam os Tiwi.  Esse grupo estava comportamentalmente tão distante dos outros que Dr. Fry e Sr. Soderberg analisaram duas vezes o conjunto: uma com e outra sem os Tiwi.

Terra dos Nômades

Excluindo os Tiwi, as mortes causadas por guerras somavam somente 15% do total. Incluindo os Tiwi, chegamos a 35%. Mas mesmo essa porcentagem ainda é uma minoria. Esses números não sugerem que os caçadores-coletores andavam por aí em busca de problemas com seus vizinhos.

Esse achado aparenta ser diferente daquele mostrado em 2009 por Samuel Bowles do Instituto Santa Fe, no Novo México, EUA. Dr Bowles analisou 8 grupos modernos de caçadores-coletores, incluindo os Tiwi, e 15 evidências arqueológicas de grupos antigos. Ele concluiu que a morte belicosa é tão comum em sociedade caçadoras-coletoras que pressionou evolutivamente o recém Homo sapiens, facilmente contribuindo para a emergencia do altruísmo extremo.

Porém, as análises do Dr. Bowles não separaram os Tiwi dos outros, sendo influenciados por esse grupo díspare. Tratar grupos excêntricos com cautela é razoável. Uma análise das guerras modernas que ocorreram nos anos de 1940 poderia levar a uma conclusão diferente daquelas ocorridas nos anos de 1950, 1960, 1970, 1980 e 1990. Nem os estudos arqueológicos poderiam claramente indicar quais mortes violentas poderiam ter sido causadas por uma guerra. Como Dr. Bowles diz: “nem sempre podemos distinguir as mortes devido a violencia intergrupo daquelas que ocorrem dentro do grupo”.

Dr. Bowles não foi o primeiro a concluir que a guerra foi comum durante a evolução humana. No início do século XX, estudos sobre índios Yanomamis, na floresta amazônica, sugerem humanos inatamente guerreiros. Mas a ideia foi superada quando, décadas depois, um pesquisador chamado Brian Fergunson re-examinou todos os casos documentados de guerras das quais os Yanomamis participaram. As guerras eram abundantes em áreas penetradas por colonizadores que em áreas onde os Yanomamis não eram incomodados.

Algo similar ocorreu com pesquisadores de primatas. O primeiro grande campo de estudo sobre esses animais foi feito por Jane Goodall. Seus chimpanzés, os quais vivem na Tanzania, são não raramente agressivos, podendo desenvolver atos de canibalismo, roubo ou assassinato de filhotes de outros indivíduos. Algo que se assemelha a uma guerra. Quando um grande grupo de chimpanzés se divide, o que se segue é um conflito intertribal vicioso. Isso sugere uma origem evolutiva para um dos aspectos mais sombrios da natureza humana.

Porém, um segundo estudo conduzido em Congo-Brazzaville, por David Morgan e Crickette Sanz, da Universidade de Washington, mostra um efeito contrário. Os cientistas mostraram que os chimpanzés são criaturas pacíficas. Por um um tempo, isso confundiu os primatologistas.

A diferença entre as duas populações é a sua densidade. Os chimpanzés da Tanzania se aglomeravam a medida que a floresta em volta era derrubada, reduzindo a quantidade de habitat disponível. Os chimpanzés do Congo aparentemente não sofriam das consequências desmatamento.

Se o ser humano moderno, industrial, é mais ou menos propenso a criar guerras que seus ancestrais caçadores-coletores é algo impossível de se determinar. A metralhadora é muito mais letal que o arco e a flecha. Porém uma coisa é certa, as taxas de assassinato tem decaído ao longo dos séculos devido ao aumento do policiamento e da diminuição da rotina de carregar armas. A sociedade moderna pode não ter feito nada em relação a guerra, mas a paz hoje é muito mais pacífica.

Adaptado de: The Economist

Anúncios

Uma resposta to “Pesquisa sugere que humanos não são geneticamente propensos a guerra, apesar de tudo”

  1. Robson Rodrigues 03/03/2014 às 10:40 #

    Bom dia Gabriel,
    O livro DAF: A Essência Perdida, de autoria de I. di Renzo, no site da Amazon ponto com, narra a origem e a provável “causa” da violência entre os humanos, nunca antes observada, imaginada ou pesquisada. Vale à pena conferir!
    Abraços
    Robson Rossit

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: