Religiosos ou não religiosos: Quem está mais propenso a ser um bom samaritano?

8 ago

Imagine que você ficou imcubido de dar uma palestra sobre a parábola do Bom Samaritano. Você pesquisou, preparou sua fala, praticou e agora está pronto para dá-la. Quando chega ao local da palestra, você é informado que o lugar de sua apresentação mudou de última hora, e agora será do outro lado da cidade. Você terá de se apressar para chegar em tempo. No meio do caminho você encontra uma pessoa gemendo de dor. O que você faz? Ajuda a pessoa e chega atrasado (ou perde) a sua apresentação, ou esquece o que viu e segue seu rumo? Isso não é somente um experimento perturbante – esse estudo clássico foi de fato realizado, e os resultados provavelmente irão surpreender até o mais moderno inquisidor.

Religião e Compaixão

Há um estereótipo de que as pessoas religiosas são inerentemente boas. Isso é, ajudarão sua comunidade e são compelidas a ajudar outras pessoas se puderem. Isso provavelmente se deve a maioria das religiões incluir deveres, principalmente de ajudar seus semelhantes. Mas será que esse estereótipo pode ser mantido? Antes de olhar a pesquisa que investigou a interação entre religiosidade e a ajuda fornecida a um estranho, seria melhor antes observar trabalhos relevantes produzidos por várias universidades.

O professor Robert Putnam, de Harvard, co-autor do livro “American Grace: How Religion Unites and Divides Us” no qual argumenta que pessoas religiosas convivem melhor com vizinhos e cidadãos, argumenta que, segundo o Sydney Morning Herald:

Em cada escala mensurável, os estadounidenses religiosos são mais generosos, mais altruístas e mais envolvidos na vida cívica que suas contrapartes seculares. Estão mais propensos a doarem sangue, dinheiro aos desabrigados, ajudar financeiramente familiares e amigos, ceder lugar a um estranho e gastar mais tempo com alguém que está “para baixo”.

Putnam e seu grupo entrevistaram 3000 pessoas, duas vezes ao longo de dois anos, perguntando uma gama de questões da vida diaria, assim como seu envolvimento cívico, relações sociais, crenças políticas, situação econômica e perfil demográfico.

O padrão religioso é muito diferente na Australia, mas pelas informações que temos, sugere-se que os resultados sejam semelhantes aqui. Num relato de 2004 feito pelo Departamento das Famílias, Serviços Comunitários e Assuntos Indígenas, Pesquisa e Filantropia da Australia mostrou que pessoas que se intitularam religiosas eram mais propensas a se voluntariar (e por um período maior de horas) que outras. O Comitê Australiano de Estatística sugere o mesmo.

Mas numa revisão da Universidade da Columbia Britânica (UCB – EUA) coloca esse tipo de pesquisa como confusa. Assim relatada pela LiveScience:

Estudos que mostram uma ligação entre altruísmo e religião são muitas vezes baseados em auto-relatos – os indivíduos relatam que fizeram algo altruisticamente sem que haja uma observação real sobre o fato relatado. Esse tipo de dado é notoriamente não confiável.

A revisão também menciona que o altruísmo pode ser motivado não somente pelo simples desejo de fazer o bem, mas também porque há a crença de que alguém está observando essas ações para assegurar que estão “certas”, ou “porque querem manter suas reputações tão corretas quanto as dos ensinamentos religiosos”.

“Encontramos pouca ou nenhuma evidencia de que empatia possui uma função na pró-socialidade religiosa”, diz o autor Ara Norenzayan, uma psicóloga social da UCB. Os tipos religiosos podem estar engajados na generosidade altruística baseada na empatia ou na compaixão, mas não há dados que suportem essa ideia.

De fato, um estudo da Universidade da California mostrou que os ateus e pessoas menos religiosas são mais motivadas pela compaixão a generosidade, e o contrário ocorre em pessoas não religiosas. Para os religiosos, a compaixão exerce um papel insignificante na generosidade. Porém isso não significa que ateus são necessariamente mais generosos que os religiosos, mas que a compaixão não é o motivo da generosidade dos religiosos tanto quanto em suas contrapartes não religiosas.

Sempre haverá um contra-exemplo ou um fator complicante adicional nas pesquisas sobre religião e altruísmo. Por exemplo, um relato mostrou que ser religioso se correlaciona a dar mais dinheiro a caridade. Isso é, quanto mais religioso uma população, mais dinheiro é dado a caridade. Se a razão para tal comportamento é a compaixão, esses achados sugerem essencialmente que religiosos são mais generosos (ao menos quando se trata em dar dinheiro).

É possível que os estadounidenses religiosos sejam mais propensos a dar dinheiro, pois são encorajados a apoiar as igrejas locais ou caridades religiosas. De acordo com um artigo publicado por Jerry Coyne: “Doações diretas as igrejas e instituições de caridade se responsabilizam por quase metade de toda as doações dadas pelos moradores dos EUA.” Alguns, como o politicamente incorreto Bill Maher, argumentam que isso não deve ser considerado como doações “caridosas” (livre-arbítrio). Isso é uma complicação daquilo que consideramos como generosidade, compaixão e altruísmo entre religiosos e não religiosos.

Porém, quando se fala em comportamento pró-social em geral, o NewScientist nota que “a evidencia de auto-relatos sugere que pessoas devotas podem ser mais altruístas – mas isso pode ser devido a sua preocupação em parecer menos egoístas”. Então, talvez os religiosos simplesmente relatam serem mais altruístas que na prática. Mas como poderíamos saber?

E é aí que o estudo do Bom Samaritano entra em jogo.

Religiosos Bons Samaritanos?

De Jerusalém a Jericó

Em 1973, um estudo denominado “From Jerusalem to Jericho: A study of situational and dispositional variables in helping behavior utilizou participantes que não sabiam que estavam sendo experimentados. Isso significa que não sabiam que estavam sendo observados (ao contrário dos questionários nos quais os respondentes sabem precisamente o que está sendo medido).

Então falemos de ciência

Primeiramente, quarenta seminaristas responderam um questionário inicial para determinar seus níveis de religiosidade (variável A). Então, foram aleatoriamente alocados em dois grupos (variável B) – e a ambos grupos foi pedido que fizessem uma palestra; um grupo sobre a Parábola do Bom Samaritano, e o outro sobre um tópico não altruísta. O blog Experimental Theology possui uma boa descrição do que acontece a seguir (variável C).

Ao chegarem ao lugar designado, os seminaristas foram informados que o local do sermão foi mudado de última hora, e que deveriam ir a uma nova localização. Nesse ponto, os seminaristas foram organizados em novos grupos aleatoriamente, dessa vez em três grupos.

1/3 dos seminaristas foram colocados num evento de grande pressão, onde precisariam chegar ao novo local com muita urgencia (a condição de emergencia). O segundo terço foi colocado sob pressão moderada (condição de emergencia intermediaria). E, finalmente, o terço final tinha o tempo que quiser para chegar ao novo local (condição de baixa urgencia).

E é aí que a coisa fica interessante. Enquanto os participantes andavam por entre dois prédios (para alcançar o novo lugar da palestra), os participantes encontraram o que os pesquisadores chamam de “pessoa com vestes surradas e amarrotadas num canto da viela”. O Experimental Theology descreve o evento a seguir:

Especificamente, os “mendigos” estavam jogados contra a parede, de cabeça baixa e olhos fechados. A medida que o indivíduo passava, o ator poderia tossir duas vezes e gemer. Basicamente demonstravam sinais de dores abdominais. A medida que os seminaristas passavam, uma variável era gravada: Eles parariam ou não para ajudar a pessoa?

Ironicamente, a preparação da palestra sobre a Parábola do Bom Samaritano (variável B) não motivou os participantes a se tornarem um Bom Samaritano. Além disso, pessoas altamente religiosas (seminaristas) não pararam para ajudar mais que as pessoas não religiosas (variável A), mesmo quando foi dada a tarefa da palestra da Parábola. De fato, algumas pessoas que estavam com pressa literalmente ignoraram o mendigo para consequentemente dar a palestra (hipocritamente).

Mas qual a diferença entre os participantes que ajudaram daqueles que ignoraram? Variável C: o grau da pressa. Na condição de baixa urgencia, 63% dos participantes pararam para ajudar, 45% na urgencia media e somente 10% na urgencia alta. Num total, 40% dos participantes ajudaram.

O que está acontecendo?

A única coisa que esse estudo carece é de mais participantes. Além disso, foi conduzido há quase 40 anos, logo, as coisas devem ser um pouco diferentes hoje. Mas, quaisquer que sejam os resultados, são claros: pessoas religiosas não aparentam ser melhores Bons Samaritanos que pessoas não religiosas. Um breve relato do Babson College oferece uma explicação:

Muitos indivíduos que não pararam aparentaram ansiedade quando chegaram ao segundo local. Estavam em conflito entre ajudar a vítima e completar sua tarefa. A expressão de algo mais forte que um sentimento de frieza pode ser uma explicação para o fato.

O Experimental Theology também tem um ponto de vista interessante sobre essa pesquisa:

O “Jerusalém a Jericó” tem uma importante observação: a maior parte de nós busca a espiritualidade como um hobby. Isso é, a Vida com Deus é perseguida como um ócio diario. Por que falo isso? Bom, hobbies e o ócio diários são aquilo que buscamos quando somos livres, quando temos tempo sobrando em nossas mãos. Mas quando temos “coisas a fazer”, tendemos a deixar nossos hobbies de lado. Não se é permitido que interfiram em nossa agenda apertada. Logo, o estudo “Jerusalém a Jericó” sugere que ajudar os outros, pra muitos, é um hobby. Tem algo a ver nos finais de semana, quando você tem tempo de sobra. É um diagnóstico instigante. Muitos cristãos tratam o altruísmo como um hobby a uma característica central e urgente de suas vidas. (N.T.: prá mim isso é demagogia barata)

Conclusão

Gostaria que alguém replicasse o estudo nos dias atuais; mas o estudo do Bom Samaritano precisa ser entendido por aqueles com idéias pré-concebidas sobre outros assuntos concernentes a religiosidade. Isso é, os crentes. Por exemplo, pesquisadores da Universidade da Columbia Britânica e da Universidade do Oregon mostraram que as pessoas religiosas possuem um sentimento de desconfiança e preconceito contra ateus. De fato, religiosos consideram os ateus tão confiáveis quanto os estupradores. É chocante.

Então, tudo que temos a dizer é mais pesquisas precisam ser feitas para investigar o altruísmo, a generosidade ou o “Bom Samaritanismo” das pessoas através do espectro da religiosidade. Será que mudamos de quatro décadas atrás para hoje?

Apesar de tudo, até mesmo Jesus não era muito preciso quando tentava explicar a Parábola do Bom Samaritano. De acordo com o dueto de David Mitchell e Robert Webb:

Adaptado de Skeptikai

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