Existe monogamia entre mamíferos?

13 ago

A resposta mais provável para a monogamia (social) é a necessidade de proteger a prole

Enquanto a traição (social e sexual) é considerada uma afronta a sociedade moderna, a monogamia entre mamíferos é um quebra-cabeças evolutivo. Alguns se prendem a um único parceiro durante toda uma vida. E é por isso que a evolução da monogamia entre mamíferos é extremamente debatida. E dois estudos publicados põem mais lenha nessa fogueira.

A evolução nos mostra que os genes dão a palavra final. E se há algo que os genes adoram é serem dispersados o mais longe e amplamente possível. E é por isso que a monogamia (sexual) é rara entre os animais.

As fêmeas tem de esperar por uma longa gestação para poderem dar a luz a cria, enquanto os machos podem inseminar muitas outras fêmeas durante esse período. Grande parte dos machos se comportam dessa maneira, mas alguns não, e são monogâmicos (socialmente).

Para entender o porque, três hipóteses foram propostas. 1) Como parte da monogamina entre pares, o pai poderia ajudar a cuidar dos filhos, o que aumentaria as chances de sobrevivencia e, então, aumentaria as chances de dispersão dos genes do pai para os netos. 2) A monogamia poderia ser selecionada porque as fêmeas ficam parte do tempo solitárias, potencializando ao máximo os recursos do ambiente e tornando mais difícil aos machos terem mais de uma parceira. 3) Ser monogâmico significa que o pai pode circular pelo ambiente em torno da prole para protegê-la de outros machos. E outros machos da mesma especie podem agir para impedir que os genes do pai sejam dispersados via prole.

Depois de anos de debates sobre essas teorias, nenhum consenso surgiu. O resultado de dois estudos deram um passo a mais nessa historia, mas sua aceitação entre os cientistas ainda está longe de ser satisfatoria.

 

Salvem as crianças

Em um estudo publicado na PNAS, as três hipóteses foram testadas entre primatas. A análise revelou que a razão maior para a monogamia é a necessidade de proteger a prole.

A prole é mais vulnerável aos machos infanticidas quando ainda estão na fase de amamentação. Durante a amamentação, a mãe tem um atraso para uma nova ovulação, e é esse atraso que leva ao infaticídio por machos não relativos. Se a cria é morta, a femea começa a ovular mais cedo que se mantivesse a cria viva. Isso é uma vantagem para um macho infanticida, pois então poderia copular com a mãe e ter maiores chances de seus genes serem dispersados as proximas gerações. Quando o desenvolvimento da prole é lento e a mãe tem de amamentar por um tempo maior, a presença do pai fornece uma proteção adicional para a sobrevivencia da cria.

Para essa análise foram recolhidos dados de 230 espécies de primatas. Esses comportamentos foram então plotados numa árvore filogenética a qual, como uma árvore familiar, mostra o relacionamento entre essas espécies.

Foi utilizado então o método Bayesiano para simular o desenvolvimento, milhões de vezes na árvore familiar, e descobrir se diferentes comportamentos evoluíram conjunta ou diferentemente aos sistemas de cópula ao longo do tempo. Se foram co-evoluídos, podemos então descobrir qual comportamento surgiu primeiro. Crucialmente esta é a habilidade de pontuar no tempo a evolução de um traço comportamental, permitindo explicar como a emergencia de um comportamento pode prever o surgimento de outro. Desse modo, provou-se que o cuidado paterno e materno co-evoluíram (surgiram) ao mesmo passo dos sistemas de acasalamento. Isso é, surgiram após a emergencia da monogamia. Já o infanticídio precedeu a monogamia.

Infanticídio → monogamia → cuidados paternos/acasalamento

Encontre a Femea

Em contrário ao estudo, Dieter Lukas e Tim Clutton-Brock, da Universidade de Cambridge, procurando a causa da monogamia ao longo das espécies de mamíferos, incluindo primatas, encontraram uma conclusão diferente. Suas análises, publicadas na Science, mostraram que a monogamia (social) em mamíferos poderia ter evoluído devido a solidão das fêmeas.

Seu estudo analisou dados de 2500 espécies de mamíferos de todas as ordens. E, rodado um método de análise diferente, mas ainda plotando o comportamento em árvores filogenéticas e simulando sua evolução, suas conclusões foram diferentes. Isso provavelmente se deve a grande quantidade de dados, pois quanto maior os dados, mais escondido fica o “gatilho” que permitiu a monogamia em primatas.

É possível que espécies diferentes de mamíferos desenvolveram a monogamia por diferentes razões, pois, entre mamíferos, é desigualmente distribuída. Por exemplo, o lento crescimento do grande encéfalo em primatas e a longa infancia faz da prole algo muito mais vulnerável aos machos infanticidas, podendo ter contribuído para sua peculiaridade entre primatas.

A sugestão de Lukas e Clutton-Brock para o surgimento da monogamia em humanos devido a solidão das fêmeas não se encaixa em espécies sociais, como o próprio ser humano. Porém o debate continua.

 

Monogamia Social e Sexual*

Em sociobiologia temos 2 tipos de monogamias (seja homo ou heterossexual). A SOCIAL e a SEXUAL. A monogamia social é necessaria para a formação do par para aumentar a chande de sobrevivencia do casal (porque um indivíduo sozinho tem menor chance de sobrevivencia que um casal. E a formação do casal depende de serem monogâmicos sociais entre eles) e da prole. A monogamia sexual NÃO existe, pois 1) aumenta a possibilidade de dispersão dos genes (machos) e 2) aumenta a probabilidade de copular com o macho/fêmea mais adaptado ao ambiente (indivíduo α do grupo), possibilitando maior dispersão dos genes e uma melhor prole.

Em resumo, a monogamia SEXUAL é INEXISTENTE em qualquer especie. Não há qualquer relato de indivíduos que sejam sexualmente monogâmicos (e daí caímos no dilema Popperiano, mas isso já é outra historia).

Portanto, no texto acima deve ser levado em conta se o que está em jogo é a monogamia sexual ou a social.

Fonte Adaptada: The Conversation

Referencia: Christopher Opiea, Quentin D. Atkinson, Robin I. M. Dunbarc, and Susanne Shultzd (2013). Male infanticide leads to social monogamy in primates Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America PNAS, DOI: 10.1073/pnas.1307903110

* Nota do Tradutor. A nota é de caráter básico e educativo. Mais variáveis e controvérsias existem. Fonte:

1) Monogamy: Mating Strategies and Partnerships in Birds, Humans and Other Mammals, Reichard e Boesch, Cambridge University Press. 2) The Myth of Monogamy. Barash DP, Lipton JE. Henry Holt and Co. New York
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