Internet e as crenças

17 ago

Este texto é uma tradução livre do trabalho do Gérald Bronner, publicado em Science et Pseudo-Sciences (http://www.pseudo-sciences.org/) assim como na revista italiana Psicologia contemporanea, número 230, 2012.

Internet, assim como qualquer inovação tecnológica importante, gera medos e esperanças. Com ele, podemos saber em poucos instantes qual a população da Armênia ou ainda o clima que faz na Austrália. Mas, por outro lado, muitos ficam preocupados por encontrar nele muitas ideias falsas que nos afastam de uma representação razoável da realidade.

Consideramos os fatos seguintes:

  • Esta tecnologia é mundial,
  • Alguns pesquisadores calcularam que a informação que transitou no início dos anos 2000 é cinco vezes maior que toda aquela que circulou desde a invenção do Gutenberg,
  • Tendemos a utilizar cada vez mais a internet para procurar informação.

É por tanto legítimo perguntar-se qual são as influências que esta maravilhosa ferramenta pode ter na difusão de ideias duvidosas, particularmente num espaço democrático.

A internet é em primeiro lugar, uma extraordinária revolução do mercado cognitivo, ou seja este espacio fictício onde encontram-se hipóteses, ideias, conhecimentos e crenças, sendo que esses objetos cognitivos podem ser concorrentes entre eles1. Em tal contexto, é de se esperar que a difusão generalizada e de baixo custo da informação seja favorável à difusão do conhecimento e à educação da maioria. Esta esperança de democratização do conhecimento é fundada em parte, mas também é uma representação ingênua da relação ordinária que existe entre o nosso cérebro e a procura de informação.

Amplificação do desvio de confirmação

De fato, na procura de informações, a nossa mente vai geralmente buscar dados que permitem reforçar a representação que já possui das coisas. Nesse punto de vista, internet representa a ferramenta última: por um investimento fraco em tempo e energia mental, ele oferece um volume considerável de informação, qualquer que seja a sua sensibilidade pessoal. A consequência menos visível, embora a mais determinante, é que todas as condições são então reunidas para que o desvio de confirmação (a tendência a privilegiar as informações que confirmam uma ideia ou uma hipótese preexistente) possa se exercer em cheio e chegue a nos ocultar a verdade. No conjunto dos processos que tendem a perenizar as crenças, o desvio de confirmação é, sem dúvida, a tentação inferencial que mais influencia a lógica ordinária. As experimentações do Wason mostram claramente a magnitude da influencia desse desvio sobre o nosso entendimento.

A força do desvio de confirmação

Numa das experimentações do Wason, um jogo era proposto ao sujeito voluntário. Aparentemente simples, o jogo necessita 4 cartas.

Cada carta possui um caráter numa face (pode ser E ou K) e um número na outra (pode ser 4 ou 7). A pergunta seguinte é então colocada ao sujeito: “quais cartas devem ser viradas para que a afirmação seguinte seja verificada? Se uma carta possuir uma vogal numa face, então o número na outra é par.”

A solução consiste em virar as cartas I e IV, mas a imensa maioria dos sujeitos da experiência escolhem as cartas I e III. Dessa maneira, eles se concentram nos casos que confirmam a regra, no lugar daqueles que a invalidam. De fato, parece natural considerar que a carta III confirma a regra do enunciado do problema, caso seja encontrada uma vogal na sua outra face. Em realidade, poderia descobrir uma consoante sem que a regra seja quebrada. A única carta que pode estabelecer a validade do enunciado (com exceção da primeira) é a quarta: Se ela tivesse uma vogal na sua outra face, tornar-se-ia obviamente falso o enunciado.

Esse processo mental propõe uma explicação simples, mas poderosa, para entender a longevidade das crenças. De fato, é muitas vezes possível observar fatos que não são incompatíveis com um enunciado duvidoso, mas essa demonstração não têm valor se não consideramos a proporção ou até a simples existência daqueles que o contradizem.

Embora a nossa apetência para a confirmação não expresse uma racionalidade objetiva, por outro lado, ela nos facilita a existência. Assim, o processo de informação é sem dúvida mais eficaz quando o objetivo é de buscar a verdade, porque ele reduz a probabilidade de considerar verdadeiro algo que é falso. Em contrapartida, exige um investimento em tempo que pode, no limite, ser considerado absurdo, já que somente se trata de tomar uma decisão satisfatória. Assim como vários autores o destacaram, as pessoas escolhem em geral uma inferência satisfatória no lugar de uma inferência ótima, usando de “avarícia cognitiva” assim como a nomearam Fiske e Taylor (1984).

Os conhecimentos metódicos produzem quase sempre um efeito cognitivo superior às propostas somente “satisfatórias” que são as crenças, mas eles vêm com um custo de investimento superior.

A partir do momento que uma ideia foi aceita, as pessoas geralmente se mantêm fieis nas sua crença. Esta fidelidade será facilitada pela difusão aumentada e não seletiva da informação que aumenta a probabilidade e a facilidade de encontrar “dados” que confirmam a sua crença. Ao contrário do autor Nicholas Carr (2008), não acredito que a Internet reprograme o nosso cérebro. Em contrapartida, me parece plausível acreditar que uma mente em busca de informação na Internet depende em parte da maneira com a qual o motor de pesquisa a organize. Aquilo que o Web revela não é uma nova maneira de pensar, muito pelo contrário: o desvio de confirmação é um processo muito antigo.

Alguém acredita que os atentados do 11 de setembro foram pilotados pela CIA? Ele vai poder encontrar em poucos segundos, com o uso de qualquer motor de pesquisa na Internet, centenas de páginas que vão reforçar a sua crença. A consulta das fontes de informação que não correspondem às representações do mundo da pessoa será facilmente considerada uma perda de tempo.

Considerando esse mecanismo de busca seletiva da informação, deduz-se que a difusão não seletiva de qualquer tipo de dados aumentará o desvio de confirmação e portanto a perenidade do império das crenças ; aquilo é certamente um paradoxo notável da nossa contemporaneidade informacional. Mas existe algo mais que ainda não foi notado pelos diversos comentaristas da cultura Internet: Trata-se de um mercado cognitivo hipersensível à estruturação da oferta, e consequentemente, às motivações daqueles que propõem conteúdos. É um dos fatores principais da organização da concorrência cognitiva desse mercado.

Os crentes dominam o mercado cognitivo

Qual ponto de vista vai encontrar mais provavelmente um internauta sem preconceito, sobre um tema vetor de crenças, se ele utilizar o motor de pesquisa da Google para adquirir uma opinião? Tentei simular a maneira com a qual um internauta médio pode ter acesso à uma certa oferta cognitiva na Internet para vários assuntos: a astrologia, o monstro do Loch Ness, os círculos de cultura (“crop circles”: aqueles círculos grandes que aparecem misteriosamente nos campos de trigo por exemplo), a psicocinese2… Estas propostas me pareceram interessante a serem testadas na medida que a ortodoxia científica contesta a realidade das crenças por elas inspiradas. Não precisamos aqui nos preocupar com a verdade ou falsidade desses enunciados (quem sabe, tal vez descobriremos um dia um dinossauro com nadadeira num lago da Escócia), mas devemos somente observar a concorrência entre as respostas que podem ser afiliadas à ortodoxia científica e as demais (que chamarei aqui de “crenças” para simplificar). Esses enunciados oferecem por tanto um ponto de observação interessante para avaliar a visibilidade de propostas duvidosas.

Os resultados são óbvios assim como o mostra a tabela seguinte:

Quantidade de sites nos 30 primeiros.

Favoráveis à crença

Desfavoráveis à crença

Neutros ou não pertinentes.

Astrologia 28 1 1
Monstro do Loch Ness 14 4 12
Crop Circles 14 2 14
Psicocinese 17 6 7

Concorrência entre crenças e conhecimentos na Internet

Somente considerando sites que defendem argumentos favoráveis ou desfavoráveis, encontra-se em média mais de 80% de sites crentes nas 30 primeiras entradas propostas pelo Google.

Como podemos explicar esta situação? Internet é um mercado cognitivo hipersensível à estruturação da oferta e toda oferta depende da motivação de quem a propõe. Também acontece que os crentes são geralmente mais motivados que os não-crentes para defender o seu ponto de vista e dedicar tempo a isto. A crença é uma parte importante da identidade do crente, e ele será mais motivado para procurar novas informações que vão reforçar o seu ponto de vista. O não-crente se encontrará mais frequentemente numa postura de interferência, recusará a crença, mas sem precisar de outra justificativa do que a fragilidade do enunciado que ele revoga. Este fato é bastante tangível nos fóruns da Internet onde as vezes crentes e não-crentes se opõem. No conjunto dos 23 fóruns que analisei (juntando as 4 crenças estudadas), 211 pontos de vista são expressos, 83 defendem a crença, 45 a combatem e 83 são neutros. O que é marcante nesse fóruns, é que o céticos se satisfazem com mensagens irônicas, zombam a crença no lugar de argumentar contra ela ; enquanto defensores do enunciado apelam a argumentos tal vez desiguais (link vídeo, copiar colar de parágrafos, etc.), mas tentam detalhar o seu ponto de vista. No conjunto dos posts propostos por aqueles que defendem a crença, 36% são sustentados por um documento, um link ou uma argumentação detalhada, contra 10% no caso dos posts de “não-crentes”. Em geral, os homens de ciência não acham interesse nem acadêmico nem pessoal em consagrar tempo para essa concorrência. A consequência paradoxal de essa situação é que os crentes conseguiram estabelecer um oligopólio cognitivo sobre vários tipos de assuntos na Internet e também nas mídias oficiais que se tornaram ultrassensíveis as fontes de informação heterodoxas.

Não penso que Internet torne as pessoas mais estúpidas nem mais inteligentes. Mas os seu funcionamento intrínseco é uma armadilha para algumas disposições das nossas mentes e tende a organizar uma apresentação da informação muitas vezes desfavorável ao conhecimento ortodoxo. Em outras palavras, a livre concorrência das ideia nem sempre favorece o pensamento mais metódico e razoável.

1 Mais precisões sobre esse conceito: Gérald Bronner, L’empire des croyances, Paris, Puf, 2003.

2 Resumi aqui alguns resultados. O estudo completo e o método são detalhados em Bronner (2011).

Bibliografia

Bronner G. (2011), The Future of Collective Beliefs, Oxford, Bardwell Press.

Bronner G. (2003), L’empire des croyances, Paris, Puf

Fiske et Taylor (1984), Social cognition, New York, Random House.

Roussiau N. et Bonardi C. (2001), Les Représentations sociales, Hayen, Mardaga.

Shérif M. et Hovland C.I. (1961), Social judgment, Yales, New Haven, University Press.

Wason P. C. (1977), « Self-contradiction », in Thinking : Reading in cognitive science (Eds. Johnson-Laird et Wason), Cambridge, Cambridge University Press.

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