Como diminuir as mortes por armas de fogo?

16 set

Um modelo matemático sobre o porte de armas de fogo foi desenvolvido para clarificar o debate sobre o controle de armas de fogo, ao mesmo tempo em que sugere que sua restrição pode reduzir as taxas de homicídio.

A chacina de 20 crianças e 6 adultos em 14 de dezembro de 2012, na Escola Sandy Hook em Connecticut, EUA, reviveu duras controvérsias sobre o controle de armas de fogo nos Estados Unidos. Os defensores desse sistema acreditam que o porte de arma ilimitado aumenta a taxa de crimes relacionados a armas de fogo e homicídios. Por outro lado, críticos argumentam que a disponibilidade de armas pode de fato diminuir a violencia por armas de fogo, pois potenciais assaltantes estariam menos propensos a cometer crimes se acreditassem que os cidadãos estão armados. Mas quem está certo? Num artigo publicado na PloS ONE, Wodarz e Komarova descreveram um modelo matemático altamente parcimonioso e elegante para tentar clarificar esse assunto. E, de um modo extremamente cauteloso, sugerem que mais armas pioram em muito as coisas.

A literatura científica sugere que os homicídios por armas de fogo são influenciados por vários fatores entrelaçados, incluindo taxa de porte de armas legais e ilegais, a prevalencia nacional de ataques por armas de fogo, a probabilidade de fatalidades em tais ataques, e a qualidade e quantidade de policiamento. A política de controle de armas de fogo é claramente uma única variável-chave num sistema social complexo. Mas seu estudo é tipicamente feito por pesquisadores que coletam esses dados e observam correlações enquanto controlam certas variáveis – tais como se os locais de homicídio são rurais ou urbanos ou se é fácil obter armas ilegalmente.

O problema é que muitas dessas correlações são difíceis de interpretar. Se a morte por armas de fogo é alta em estados com altas restrições de posse e comercialização, significa que as restrições as armas é parte da causa das altas taxas de crimes ou por que os políticos reagem as taxas de crimes criando mais restrições? E foi com essa dificuldade que Wodarz e Komarova criaram seu próprio modelo de posse de armas de fogo.

A criação de modelos para estudar fenômenos sociais complexos não é novidade. Em 1974 o economista Gary Becker criou um modelo de “oferta-e-procura” para a “produção” de crimes e punições. Utilizando esse modelo, mostrou como o crime pode ser minimizado com várias políticas privadas e públicas, tornando o comportamento criminoso muito “custoso”. Mas a análise de Becker não toca explicitamente na ferida aberta do controle de armas de fogo, e os pesquisadores que se seguiram também tenderam a focar mais em modelos abstratos.

Ao contrário, o modelo de Wodarz e Komarova é explicitamente designado para as políticas de controle de armas de fogo e seus efeitos. No cerne do modelo está o índice do porte de arma em si. Leis muito rígidas baixam esse índice, e leis mais permissivas aumentam-no, mas o mecanismo em si não é importante – o objetivo do modelo é clarificar quais variáveis são necessárias para medir os efeitos de portar armas de fogo sobre a taxa de homicídios relacionados a essas armas.

Wodarz e Komarova supõem que há uma relação positiva entre o número de indivíduos portanto armas de fogo e ataques potenciais relacionado a elas. E isso é razoável: se não há armas, não haverá ataques armados. Mas os autores também admitem que pode haver uma relação negativa entre a taxa de porte de arma e a probabilidade de um atacante não usá-la. Isso se deve aos não criminosos também poderem portar a propria arma. Se uma vítima em potencial possuiu uma arma, um atacante potencial pode pensar duas vezes antes de atacar.

Outros fatores também estão incluídos no modelo, tal como o risco de morrer em um ataque por arma de fogo, e a disponibilidade e a prontidão do uso de armas ilegais em relação aos (muitos) níveis de controle. Mas o ponto-chave é que existem essencialmente dois mundos perfeitos, um no qual ninguém usa arma (significando que ninguém pode efetuar um ataque armado), e outro no qual todos usam armas (significando que ninguém é atacado). No meio temos o pior dos dois mundos, pois alguns criminosos possuem armas e escolhem usá-las. Isso significa que o efeito da disponibilidade de armas de fogo é crucialmente dependente de onde nos localizamos entre esses dois mundos.

Isso é a ciencia social em seu melhor. Ao invés de criar outro modelo formal altamente abstrato, Wodarz e Komarova criaram um modelo que é diretamente relevante a um assunto estritamente social. E ao invés de dar excesso de ênfase nos resultados de seu modelo, conduziram um exercício de cautela, destacando a importancia dos modelos básicos disponíveis e de suposições precisas – pois um modelo é tão bom quanto as suposições que as cria.

Usando suas melhores suposições sobre os valores estimados ou implicados a partir da literatura existente, Wodarz e Komarova mostram que leis mais rígidas são a melhor alternativa para reduzir as mortes por armas de fogo. Mas rapidamente apontam que se trata somente de uma suposição, já que não há uma medida 100% confiável. Logo, embora o modelo dê suporte a argumentos em favor do controle de armas de fogo, é justo dizer que ainda falta muito.

A contribuição mais óbvia de Wodarz e Komarova vai além do estudo das políticas de controle da armas de fogo, destacando parâmetros essenciais que requerem uma investigação empírica mais aprofundada. A colaboração entre sociólogos, cientistas políticos e outros pesquisadores pode agora dar um passo a mais para o entendimento das políticas de controle de armas, focando na importancia dos dados mensurados. Equipado desses números, o modelo pode nos ajudar a solucionar – talvez de uma vez por todas – o debate sobre o porte de armas.

Fonte:
Social Science: The Mathematics of Murder. Nature. 501: 170-171, 2013.
Wodarz D, Komarova NL. Dependence of the firearm-related homicide rate on gun availability: a mathematical analysis. PLoS ONE. 8: e71606, 2013

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