Os cristais de Iaiá

23 set
Museu Geológico da Bahia. Note o sujeito sentado a entrada. Chorando de desespero e decepção após conhecer a sala "energia dos cristais"?

Museu Geológico da Bahia. Note o sujeito sentado à entrada. Chorando de desespero e decepção após visitar a sala “energia dos cristais”?

A geologia foi meu primeiro interesse científico. No colégio dediquei minha primeira exposição na feira de ciências às rochas (com destaque para o vulcão feito de argila e vela que derramava “lava” na forma de cera derretida) e até hoje guardo algumas das peças que colecionei. Esses tempos estive de viagem pela Bahia, estado que impressiona pela história, costumes, patrimônio natural e arquitetônico, mas infelizmente também pelo grande descaso do poder público e consequente pobreza. Um dia quando estava em Salvador, caminhando pelo Corredor da Vitória rumo ao Museu de Arte (MAB), me deparei com o Museu Geológico da Bahia.

Placa inaugural, marca a presença deste que foi uma verdadeira pedra no caminho do desenvolvimento político brasileiro. ACM não tinha doutorado.

Placa inaugural, marca a presença deste que foi uma verdadeira pedra no caminho do desenvolvimento político brasileiro. ACM não tinha doutorado. (clique na imagem para aumentar)

Naturalmente, não poderia deixar passar essa oportunidade de rever minha paixão infantil. Gostei muito dos exemplares expostos, assim como das explicações detalhadas que os acompanhavam. Haviam boas descrições da origem estelar dos minerais, uma réplica do maior meteorito encontrado no Brasil, uma ala com fósseis, outras sobre radiação e petróleo (estas duas últimas bem aprofundadas embora com um leve mas desnecessário tom propagandístico). Instituições assim fazem jus aos nobres propósitos de fascinar com a complexidade e beleza da natureza, educar a população e atrair jovens para a carreira científica.

Sorria! Você está sendo enganado.

Sorria! Você está sendo enganado. (clique na imagem para aumentar)

Minha expectativa aumentou quando reparei que havia uma sala com o provocativo título “energia dos cristais”. Pensei tratar-se de uma ótima iniciativa de desmistificação das lendas e pseudociência envolvendo os cristais. Mal sabia eu que estava prestes a passar por um verdadeiro portal pseudocientífico, onde civilizações míticas realmente existiram, e os cristais guardam poderes mágicos, capazes de curar doenças e revelar capacidades ocultas da mente. Sério!

A sala e seus exemplares de pedras mágicas.

A sala e seus exemplares de pedras mágicas. (clique na imagem para aumentar)

Logo ao entrar, um dos dois painéis principais levantava questões folclóricas típicas: Os cristais emanam energia? Exercem efeitos terapêuticos no homem? Como amuleto, protegem e dão sorte? Procurei ansiosamente a única resposta que (imagino) um geólogo poderia dar: não existe nenhuma evidência em favor de qualquer uma delas. Mas minha busca foi em vão. Encontrei, ao contrário, uma exposição dedicada a promover, com todo o respaldo e credibilidade científica de um museu geológico, a cristaloterapia.

Os cristais emanam energia? Não sei, por que não perguntamos a um geólogo? Ná, deixa para o cristaloterapeuta.

Os cristais emanam energia? Não sei, por que não perguntamos a um geólogo? Ná, deixa para o cristaloterapeuta. (clique na imagem para aumentar)

Cada exemplar vinha acompanhado de uma descrição, em tom sério e autoritativo, de suas supostas qualidades terapêuticas. Por exemplo, a Calcita, de acordo com a exposição, “é um carbonato de cálcio benéfico para os órgãos de limpeza e ossos” e que “psicólogos utilizam-na para focalizar a concentração”. Já a Turmalina é uma “pedra com fortes poderes terapêuticos de procedência mística, sobretudo, quando utilizada no apoio ao tratamento do sistema endócrino e no fortalecimento dos dentes e ossos.” O meu favorito foi o Quartzo Hialino, pois descobre-se que na “antiga civilização de Atlântida, já se usava esse cristal para cura, magia e processos espirituais” e que “os sobreviventes atlantes se espalharam pelo mundo, levando o conhecimento sobre este cristal”. É o museu geológico da Bahia endossando o mito do continente perdido de Atlântida!

"Este espaço é para você que muito tem indagado sobre estas questões." Sim, e a resposta é: cristaloterapia funciona \o/

“Este espaço é para você que muito tem indagado sobre estas questões.” Sim, e a resposta é: cristaloterapia funciona \o/ (clique na imagem para aumentar)

Perdida estava também a oportunidade de usar estas crenças infundadas nos poderes dos cristais para ensinar ciência de verdade e ferramentas de pensamento crítico. Os supostos efeitos terapêuticos poderiam ter servido de gancho para explicar sobre o efeito placebo, viés da confirmação, reforço comunitário, etc. A energia dos cristais poderia ter sido a deixa para explicar o efeito piezoelétrico, através do qual certos cristais podem gerar eletricidade em resposta à pressão mecânica, ou mesmo o mecanismo de operação de um relógio de quartzo.

Calcita e seus poderes. Ah, esses psicólogos, sempre dando cristais para as crianças.

Calcita e seus poderes. Ah, esses psicólogos, sempre dando cristais para as crianças. (clique na imagem para aumentar)

Turmalina. O pano de seda potencializa o efeito mágico.

Turmalina. O pano de seda potencializa o efeito mágico. (clique na imagem para aumentar)

Quartzo Hialino, prova da existência do continente perdido de Atlântida?

Quartzo Hialino, prova da existência do continente perdido de Atlântida? (clique na imagem para aumentar)

Quartzo Morion. Enraizando a pseudociência nas pessoas.

Quartzo Morion. Enraizando a pseudociência nas pessoas. (clique na imagem para aumentar)

Drusa de Quartzo. Ou melhor, "um canal para transmitir energia."

Drusa de Quartzo. Ou melhor, “um canal para transmitir energia.” (clique na imagem para aumentar)

Mas talvez eu esteja levando tudo isso demais a sério. Talvez seja só uma sala descontraída, um pouco de entretenimento leve em meio a frieza da ciência geológica, a ser levado tão a sério quanto a coluna do horóscopo em jornais sensacionalistas. Que mal há nisso? Vários. Primeiro que não precisamos alocar mais espaço para a pseudociência, a mídia já se dedica a isso com suficiente empenho. Segundo que ao endossar esse tipo de não-conhecimento, o museu empresta suas credenciais científicas ao mito e ao charlatanismo. Muita gente, particularmente as crianças, contam com lugares como museus para esclarecer todo tipo de dúvida, rumores e alegações. Essa atitude desleixada com o conhecimento acaba deixando na mão quem mais poderia se beneficiar.

Obsidiana. "Permite penetrar profundamente nos pensamentos mais íntimos das pessoas". Medo.

Obsidiana. “Permite penetrar profundamente nos pensamentos mais íntimos das pessoas”. Medo. (clique na imagem para aumentar)

No dia 30 de Agosto enviei um email para o atual coordenador do museu, Heli de Almeida Sampaio Filho, com as observações acima e perguntando a sua opinião. Ainda não obtive resposta (mande sua opinião para ele também). Mas espero sinceramente que responda. A Bahia tem muitas coisas lindas. Essa sala do museu NÃO é uma delas.

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5 Respostas to “Os cristais de Iaiá”

  1. alex 24/09/2013 às 14:50 #

    bem… tem uma plaquinha de “vc está sendo filmado” bem do lado.. será que não estão fazendo um experimento pra ver a reação das pessoas ?
    rsrs

  2. José Silva 19/06/2015 às 17:40 #

    Sei que este blog é dos céticos, contudo talvez por falta de maiores estudos e aprofundamento do assunto, essas funções de determinados cristais podem ser uma explicação grosseira de possibilidades ainda não exploradas, quem sabe? Alguém nunca ouviu falar da máxima ” EXISTE MAIS MISTÉRIO ENTRE O CÉU E A TERRA QUE SUA VÃ FILOSOFIA POSSA ACREDITAR!”…

    • André Luzardo 20/06/2015 às 15:14 #

      Olá José. Nada contra explorar todas as possibilidades, desde que essa exploração seja guiada por princípios científicos. É evidente que esse não foi o caso aqui. As informações são expostas como verdades comprovadas e não hipóteses ainda não testadas. Além disso, sugerir hipóteses não é um processo aleatório tipo vale-tudo. Se fosse assim o progresso científico seria praticamente impossível; qualquer hipótese tola seria dada igual atenção e estariamos o tempo todo investindo recursos em investigações claramente sem sentido como tentando provar que esfregar um tijolo na pele cura verrugas ou outra coisa igualmente boba. Hipóteses cientificamente frutíferas advém de um conhecimento profundo da área e não de meras intuições místicas.

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  1. Evolução não existe, mas esqueceram de dizer isso às doenças resistentes a antibióticos » Ceticismo.net - 24/09/2013

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