O que são pensamentos, e o que exatamente é o pensar?

1 out

Tente, se conseguir, imaginar uma vida sem pensamentos. Para um ser humano isso significaria uma vida sem existencia. Os pensamentos completam todos os nossos momentos da vida enquanto estamos acordados. Se são indutivos, banais, divertidos ou bizarros, não podemos negar que pensar é algo natural para nós. Podemos dizer que o pensar para os humanos é como o voar para as águias e o nadar para os golfinhos.

Mas devemos levar em consideração uma simples variável para entendermos a natureza do pensamento. Assim como as águias voam sem entender de aerodinâmica, e os golfinhos nadam sem entender de mecânica de fluidos, grande parte de nós pensa sem saber da natureza desse ato. Pensar pode ser trivial, mas é um tanto difícil pensar sobre o pensamento em si.

Então, o que é o pensamento? Essa é uma pergunta supreendentemente difícil de responder. As neurociências, psicologia, filosofia e outras disciplinas tentar defini-la a partir de várias perspectivas, mas o pensamento em si não recebeu a atenção que deveria ter recebido.

Talvez parte da explicação para isso seja porque o pensamento é um fenômeno extremamente variado e complexo. Podemos pensar sobre uma incrível variedade de coisas: objetos, pessoas, lugares, relacionamentos, conceitos abstratos, o passado, futuro, coisas reais e imaginárias. Podemos pensar também sobre nada, e também sobre o pensamento em si.

O exercício do pensamento é também elusivo, embora há algumas coisas que podemos indutivamente dizer. Usamos o pensamento para resolver problemas e inventar coisas – mas qual o controle que temos sobre a mente? E existe um limite para o que podemos pensar?

Para avançar um poucos nessas questões, primeiramente devemos criar algumas distinções para o termo “pensamento”. Podemos nos referir a três características diferentes da vida mental.

Imediatamente podemos dizer que o pensamento se refere a um evento mental. Pensar em algo é trazer a mente o pensamento de alguma forma. Por outro lado, pensar refere-se a um certo tipo de faculdade mental. Assim como há faculdades associadas com a percepção e a linguagem, há também uma faculdade mental – ou talvez faculdades – associadas com a capacidade de pensar. E a terceira característica refere-se a um certo tipo de atividade mental. Do mesmo modo que você pode estar ocupado em observar ou ouvir algo, também pode estar ocupado em pensar sobre.

Considerar-nos-emos primeiramente o pensamento como um evento mental. O que são pensamentos, e o que os distinguem dos outros eventos mentais, tais como experiências de percepção e sensações corporais?

Imagine que você está em volta de uma fogueira. Pode-se ver as chamas e sentir o calor. Esses são eventos puramente perceptuais. Também poderá imaginar o que aconteceria se o vento mudasse de direção, ou como a combustão funciona. Esses eventos são fornecidos pelas suas experiências perceptivas, mas não são em si formas de percepção. São pensamentos.

 

Mais que uma sensação

Embora a distinção entre percepção e pensamento seja intuitivo, ninguém conseguiu caracterizá-los. De um lado podemos argumentar que o pensamento envolve a organização de conceitos. Por outro lado, os estados sensoriais não podem ser organizados. É possível ver uma fogueira sem termos o conceito de “fogueira”, mas é impossível tentar imaginar o conceito. Porém essa visão é dicotômica por uma única razão: alguns teóricos argumentam que os conceitos estão contidos dentro do pensamento e da percepção. E é difícil dizer precisamente o que os “conceitos” são na verdade.

Outro modo de distinguir o pensamento da percepção é por meios de suas características conscientes: “o que se parece” uma fogueira é muito diferente do “o que se parece” perceber uma fogueira. Mas aqui também encontramos dificuldades. Embora todos concordem que pensar sobre uma fogueira é subjetivamente diferente de perceber uma, estabelecer um critério fixo é complicado.

O assunto em si se embaralha pelo fato de que os pensamentos são muitas vezes inconscientes. Considere quando você tenta resolver um problema, e algo simples vem a mente, ou você dorme e no dia seguinte e miraculosamente resolve o problema. Então não podemos nos basear na consciencia para distinguir o pensamento de outros eventos mentais.

E quanto ao pensamento como faculdade mental? Um ponto de partida muito útil é a concepção de René Descartes sobre o pensamento: “um instrumento universal que pode ser utilizado para todos os tipos de situações.” O que ele quis dizer com isso?

Considere, novamente, a diferença entre a percepção e o pensamento. Para percebermos, talvez, uma maçã, devemos ter uma conexão casual entre você e a maçã. A luz deve ser refletida na maçã e processada pelo seu sistema visual. Nenhuma conexão é necessária para pensar sobre a maçã. Você pode pensar em uma quando quiser, existindo ou não. Isso é o que permite a faculdade do pensamento ser usada “em todas as situações.”

Outra característica do pensamento que Descartes aponta é o seu escopo. A percepção fornece acesso somente a uma gama limitada de coisas. A visão pode nos dizer se uma maçã está vermelha ou se está em queda, mas somente uma criatura com a capacidade do pensamento conseguirá apreciar o fato que a maçã se originou próximo do Oriente Médio ou que possui mais genes que um humano. Podemos pensar sobre objetos que estão longe de nós, separados pelo espaço e pelo tempo, sobre o que existe e o que não existe. A capacidade do pensamento humano pode não ser completamente ilimitado (veja mais abaixo), mas não há dúvidas que ultrapassa amplamente o alcance da percepção.

Uma característica final da faculdade do pensamento é sua natureza integrativa. Isso permite relacionar um assunto específico a outros e perceber conexões entre eles.

Considere um famoso episódio na história da Medicina. Enquanto trabalhava num hospital em Viena, Áustria, nos anos de 1840, o médico Ignaz Semmelweis percebeu que a incidencia de febre pueperal era muito maior em uma ala da maternidade que em outras. Ele também percebeu que essa ala era utilizada por estudantes de medicina que participavam de necrópsias. Isso o levou a supor que os estudantes estavam contaminando as mulheres com “material cadavérico”. Ele testou essa hipótese pedindo aos alunos para lavarem as mãos com hipoclorito de cálcio – conhecido por remover o cheiro dos corpos – antes de visitar a ala. Esse ato levou a uma queda dramática nas mortes por febre pueperal.

A descoberta de Semmelweis, que fundamentou a teoria dos germes sobre a causa de doenças, precisou de dois atos de integração: não somente fez uma conexão não noticiada até o momento como também pensou num modo de testar a hipótese resultante.

Utilizamos nossa capacidade mental de resolver problemas no dia-a-dia. Seja planejando um feriado, tentando se virar no trabalho ou com as crianças, ou somente para tentar entender a melhor forma de sair de A e chegar até B. Gastamos muito de nossas vidas pensando sobre o relacionamento entre eventos.

Agora vamos admitir o pensamento como uma atividade mental. Em outras palavras, vamos detalhar o pensamento.

Embora os pensamentos possam ocorrer isoladamente, talvez seja mais comum ocorrerem em blocos. Há dois tipos de blocos de pensamentos. Alguns pensamentos tem uma relação associativa: um pensamento pode, naturalmente e com o mínimo de esforço, levar a outro, como num jogo de associação entre palavras. Por exemplo, os pensamentos sobre a Suíça podem dar origem a pensamentos sobre esquiar, o que pode levar a neve, o que pode levar ao evento do Natal… e por aí vai. O pensamento associativo é comumente utilizado nos períodos em que estamos acordados ou em nosso devaneios.

Embora aja certo encanto em seguir o estilo de blocos de pensamentos, a capacidade de pensar argutamente se encontra em algum lugar mais sistemático: o fato de que isso nos permite utilizar a evidencia e a lógica. De fato, o termo “pensamento” é algumas vezes delegado a essa atividade (veja Experimentos do Pensamento).

Considere a cadeia de pensamento “Sócrates é um humano”, “todos os humanos são mortais” e “Sócrates é mortal”. Os componentes estão conectados de modo inferente. Se as duas primeiras frases são verdadeiras, então a terceira também é.

Muito do valor do pensamento advém de nossa habilidade de organizar o pensamento em blocos coerentes para “ver” o que acontece em seguida. Em outras palavras, muito de nosso interesse em pensar significa racionalizar.

 

A natureza do pensamento

Tendo lido os vários aspectos do pensamento podemos agora focar nossa atenção na natureza do pensamento. O que ele é?

Costumava-se acreditar que o pensamento necessitava de algum tipo de meio não físico – uma alma ou uma mente imaterial. Os teóricos modernos comumente rejeitam essa assertiva em favor de uma descrição mais materialista, em que o pensamento envolve somente processos físicos.

Há três motivos para isso. O primeiro é devido as correlações entre alterações que ocorrem dentro do cérebro e os estados da mente. A partir de pequenas alterações que ocorrem após tomarmos cafeína até os efeitos mais radicais de danos cerebrais fica claro que o estado físico do cérebro está intimamente correlacionado com nossa capacidade de pensar.

Uma segunda motivação é sua habilidade em criar funções causais do pensamento em relação ao mundo. O pensamento é causado tanto por eventos físicos como é a causa deles. Ver um trem chegando na estação leva-nos a pensar que “é hora de partir”, o que significa pegar sua bagagem e entrar no trem.

E em terceiro, a descrição materialista sobre o pensamento faz justiça a continuidade da natureza. Assumimos que os humanos evoluíram de animais que careciam da capacidade de pensar. Embora não possamos provar que isso permitiu o aparecimento de algum tipo de meio não-físico, é mais plausível admitir que a evolução de criaturas pensantes pode ser explicada por completo através de alterações que ocorreram nas estruturas desses sistemas físicos.

Nenhuma dessas racionalizações são definitivas, mas todas juntas fornecem um robusto escopo para a concepção física sobre o pensamento. Então, como os pensamentos podem se manifestar como fenômenos físicos cerebrais?

Por muito tempo, o pensamento era única e exclusivamente acessível por meio da fala e do comportamento. Há várias teorias sobre como os pensamentos surgem (veja “Pensando como um computador”). Mas o desenvolvimento sobre a “decodificação cerebral” começa a ter um foco mais direto sobre o estudo do pensamento.

Utilizando-se da técnica de ressonancia magnética funcional (fMRI), os neurocientistas começam a utilizar a informação do estado mental das pessoas para determinar o que estão pensando. Em um estudo, os voluntários tinham de escolher entre duas opções – “adicionar” ou “subtrair” – antes de serem apresentados com dois números para fazerem seus cálculos. Os pesquisadores foram capazes de dizer, com 70% de certeza, quando os indivíduos decidiam adicionar ou subtrair somente por meio da leitura das suas intenções encefálicas (Current Biology, vol 17, p 323). Outros pesquisadores tiveram sucesso similar trabalhando no que as pessoas estão prestando atenção somente a partir da atividade cerebral.

Embora seja um resultado supreendente, devemos enfatizar as limitações dos estudos de decodificação. Primeiramente, há uma restrição artificial sobre o que os participantes devem pensar. No estudo adição/subtração, havia somente duas possibilidades. No mundo real, o pensamento não é limitado como no experimento, e a tarefa de interpretar a atividade cerebral de uma pessoa no dia-a-dia é muito mais difícil.

A decodificação do cérebro também requer grandes preparativos, como a correlação do mapeamento entre o pensamento das pessoas e da atividade cerebral. Os pesquisadores não podem ler os pensamentos que ainda não estão prontos, incluindo seus bancos de dados. O estudo sobre a imagem do cérebro ainda tem um longo caminho a percorrer para decodificar a linguagem do pensamento.

 

Pensamentos e Palavras

Uma questão debatida calorosamente sobre a natureza do pensamento é seu papel na linguagem. Há uma vasta coleção de opiniões. Numa ponta do espectro está o que pensamos numa determinada lingua.  Na outra ponta está a visão de que a linguagem não influencia o pensamento além de nos permitir comunicar o que pensamos. A verdade então se localiza em algum lugar no meio.

Um modo de destrinchar este debate é considerar que tipos de pensamentos os animais não humanos se interessam. Pesquisar esse ponto é difícil, mas há ao menos três domínios mostrando evidências do pensamento em animais: números, relações sociais e estados psicológicos.

Muitas espécies possuem capacidade matemática. Em um estudo, ratos foram treinados a pressionar uma alavanca quando ouviam dois tons, e a pressionarem outra alavanca quando ouviam quatro tons. Também foram treinados para fazer o mesmo em responsta a flashes de luz. Quando apresentados com um tom e um flash, eles pressionaram a primeira alavanca, indicando que eles entenderam o estímulo como “dois eventos”. Em resposta a dois tons e dois flashes de luz, pressionaram outra alavanca.

Várias espécies podem também comparar quantidades. Em um experimento foi dado a chimpanzés a escolha entre duas caixas com barras de chocolate. Em cada caixa havia duas pilhas – uma pilha com 3 barras juntamente a outra pilha com 4 barras, e outra caixa também com duas pilhas: 7 barras e outra com 2 barras. Os chimpazés então encararam o problema de determinar qual caixa tinha a maior quantidade de barras. Embora se confundiram quando as quantidades eram muito similares, geralmente escolhiam a caixa com a maior quantidade.

Chimpanzés também podem captar frações simples. Quando lhes é mostrado uma garrafa de leite pela metade, são capazes de apontar uma maçã pela metade e ignorar ¾ de mação em ordem a ganhar uma recompensa.

Em geral, as evidências sugerem que várias espécies podem quantificar até três objetos com exatidão, e quantidades maiores em termos aproximados. Essas representações podem ser assemelhar a pensamentos, já que independem do estímulo e são sistemáticas.

Um segundo ponto mostrando evidências do pensamento animal advém da posição social. Algumas das pesquisas mais fortes sobre a cognição social foi feita em fêmeas de babuínos, cujo mundo social envolve uma hierarquia de duas camadas. As famílias estão socialmente posicionadas umas em relação a outras, e as fêmeas dentro de cada familia também.

Esse posicionamento – o qual é fluido – exerce um papel fundamental na sociedade de babuínos, e não é surpresa encontrar uma representação caótica de seu mundo social. Por exemplo, um babuíno pode ficar mais alerta por uma sequencia de chamados que representa uma potencial ameaça de um babuíno dominante de uma familia diferente, a uma sequencia de chamados que representam um conflito equivalente dentro da familia, mesmo quando a diferença na posição social geral é idêntica.

Há várias maneiras pelas quais um babuíno entende o próprio mundo social por meio de características de seu pensamento. Primeiramente, a posição social não é diretamente obvia no ambiente, e se manter atualizado sobre o posicionamento de cada babuíno requer o desenvolvimento de uma teoria sobre isso. Segundo, aparenta ser algo aberto: um babuíno pode ser o representante de um grande número de relações possíveis entre os membros de seu grupo, incluindo aqueles que não são esperados. As características fornecem uma boa justificativa para descrever a representação do mundo social dos babuínos em forma de pensamento.

Uma terceira area, na qual as representações de pensamentos são encontradas, está relacionada ao entendimento dos estados psicológicos. Ao menos os primatas podem determinar o que os outros podem observar – e, talvez, o que sabem – baseando-se no que estão observando. Os chimpanzés irão acompanhar o movimento dos olhos para localizar o objeto de atenção e podem, então, remover itens para si, como alimentos, do campo visual de outros animais. Em experimentos, chimpanzés subordinados somente irão pegar alimentos que estão fora do campo de visão de chimpanzés dominantes – e esses tipicamente pegam todas as comidas que veem e punem os subordinados que os desafiam – sugerindo que eles entendem a conexão entre ver e conhecer.

 

Estado da Mente

Há também evidências de que primatas podem monitorar seus próprios estados mentais. Numa serie de estudos, macacos aprenderam a executar um teste no qual é necessário discriminar entre dois objetos diferentes. Quando respondiam corretamente, recebiam comida; quando erravam, recebiam nada e eram obrigados a esperar o próximo teste. Os macacos aprenderam que se apertassem um botão localizado na gaiola de testes, podiam pular o teste atual e partir imediatamente para o próximo. Os macacos passaram a utilizar a opção do “pulo” quando o teste se tornava muito difícil.

Fica claro que espécies não humanas utilizam-se de processos mentais (pensamentos) em várias situações. Mas mesmo assim não se equiparam a sofisticação e alcance do pensamento humano. Então, o que torna o pensamento humano tão único? A resposta aparenta estar relacionada a linguagem.

Considere o seguinte experimento envolvendo Sheba, uma chimpanzé treinada para usar números para representar itens. Foi oferecido a Sheba dois pratos de comidas, uma com grande quantidade de comida e outra com pequena quantidade. Para obter o prato grande, ela tinha de apontar para o prato pequeno. Embora entenda as regras, Sheba não pode superar seus instintos e apontava sempre para o prato grande. Quando os pratos eram cobertos e, acima da cobertura, eram colocados números que indicavam a quantidade de alimentos que cada prato continha, Sheba transcendeu suas habilidade normais e executou algo muito mais inteligente: desprendeu seus pensamentos da percepção. Esse “desacoplamento” é uma característica marcante do pensamento humano, e pode ser facilitado pelo (e talvez até requeira) uso de símbolos, especialmente a linguagem.

Outro exemplo da capacidade de transformação dos símbolos é fornecido por um estudo com chimpanzés treinados que utilizam etiquetas para representar se algo é semelhante ou diferente. Um par de copos pode estar associado a um triângulo vermelho (semelhança), e um copo e um sapato pode estar associados a um círculo azul (diferença).

Uma vez que os chimpanzés tenham entendido esta ideia – e somente após isso – puderam associar relações de alta ordem entre semelhante e diferente. Eles entenderam que dois pares, tais como copo-copo e copo-sapato, possuem a relação de diferença. Os pesquisadores sugerem que as etiquetas permitiram aos chimpanzés desempenhar a tarefa, pois puderam transformar uma tarefa de alta ordem em uma de ordem simples para determinar se os símbolos associados com cada par eram os mesmos.

Assim como o filósofo Andy Clark afirmou, “as experiências com etiquetas e marcas externas permitiram ao cérebro em si… resolver problemas cujo nível de complexidade e abstração nos deixariam, de outra forma, confusos.”

A linguagem facilita o pensamento de outros modos. É uma ferramenta que nos permite aumentar a capacidade do pensamento. Colocar pensamentos em forma de linguagem nos permite dar um passo atrás e colocá-los sob avaliação crítica. Há boas razões para supor que as muitas diferenças do pensamento humano envolve, ou ao menos é permitida pela, linguagem.

Outra característica distinta do pensamento humano é aquela que ocorre no ambiente social. Nascemos numa comunidade de pensadores, e aprendemos a pensar por pessoas mais expertas. De fato, a infancia é uma versão extendida do aprendizando sobre pensar. Aprendemos a maneira de pensar em algo e o modo de fazê-lo.

Talvez a coisa mais importante de todas seja a transmissão cultural, a qual nos permite modelar os melhores pensamentos de uma geração para serem passadas aquelas que se seguem. Ao contrário de outras espécies, cuja ruptura cognitiva comumente necessita ser novamente redescoberta por cada geração, podemos criar modelos a partir do pensamento de nossos ancestrais. Herdamos não somente o conteúdo de seus pensamentos, mas também os métodos para a geração, avaliação e comunicação do pensamento.

 

O que o Pensamento envolve

Outra questão-chave que surge do pensamento como uma atividade é em relação ao tipo de controle que temos sobre ela. O pensamento é uma atividade intencional e controlada ou algo amplamente passivo? Podemos controlá-lo ou é algo que somente nos ocorre?

Algumas vezes o pensamento é controlado pela aplicação de uma regra. Operações matemáticas e logarítimicas, por exemplo, são baseadas em regras, e os filósofos inventaram muitas outras “ferramentas do pensamento” sistemáticas para ajudá-los a pensar mais claramente (veja Ferramentas para o Pensamento). Mas é um tipo incomum de atividade, e muitos episódios do pensamento não envolve regras.

Suponha que eu o pergunte por que países democráticos não tendem a se empreender em guerras com outras democracias. (comumente se diz que as democracias nunca se engajaram em guerras com outras democracias, mas não é verdade). Se você ainda não havia pensado nessa questão, você precisa pensar sobre isso.

O que precisamente isso envolve? Se você faz como eu, simplesmente encara a questão e… espera que algo surja a mente. Algumas vezes nada acontece; em outras ocasiões sua consciencia aparece com algo inteligível. De qualquer modo, não há regras que você conscientemente siga, em ordem de gerar os pensamentos necessários.

De um todo, o pensamento muitas vezes não se estende muito além da análise de questões respondidas pelo seu inconsciente. O papel da consciencia nesses casos aparenta ser de um memorando, cujo trabalho é assegurar que um bloco de pensamento não entre em devaneios.

Porém, somos surpreendentemente pobres em manter sob controle nossos devaneios. Num estudo, foi pedido a voluntários que lessem uma trecho de uma frase que vinha a sua mente. E sua capacidade de “devanearem” foi monitorada. Eles foram interrompidos aleatoriamente para verificar se ainda conseguiam ler o trecho. Ficou claro que os participantes devanearam muito e, mais interessantemente, geralmente não percebiam o devaneio.

De fato, uma quantidade significativa do pensamento não é direcionado – isso é, não se direciona para qualquer objetivo ou problema específico. Esse tipo de pensamento admite muitas formas, desde o devaneio simples de uma tarefa ao pensamento espontâneo que surge repentinamente em nossa mente durante o repouso ou em rotina.

Até recentemente, o pensamento não direcionado foi visto como aspecto inútil e dispendioso da nossa mente interna. Mas os pesquisadores agora sugerem que seja um aspecto normal, e até mesmo necessário, do pensamento. A atividade cerebral durante o devaneio médio é maior daquele visto em pessoas engajadas num pensamento criativo. Pode ser que, paradoxalmente, o pensamento não direcionado ocorra quando temos os nossos melhores pensamentos.

Também existem evidências que tentar controlar a direção de um fluxo de pensamento pode ser contraprodutivo. Num famoso estudo, o psicólogo Daniel Wegner pediu a voluntários não pensarem em ursos brancos por 5 minutos. Ele mostrou que esse grupo relatou mais pensamentos sobre ursos brancos que um segundo grupo intruído a pensar exatamente sobre ursos brancos.

Os Limites do Pensamento

Embora tenhamos consciencia do controle da direção de nosso pensamento, ainda estamos muito longe de algo ilimitado. E se tivermos um controle relativamente pequeno, talvez tenhamos somente uma pequena responsabilidade por aquilo que pensamos.

Não obstante, o potencial do pensamento humano é claramente enorme. Não é limitado pelas nossas habilidades físicas e perceptuais. Não podemos ver ou visitar locais longínquos no espaço e no tempo, mas podem pensar sobre eles.

Existem limites para aquilo que nossa mente se apega? A ideia de que certos aspectos da realidade estão além da nossa compreensão é, ao primeiro aspecto, errônea. Além disso, aparentemente não há nada no mundo que não podessamos pensar sobre. Então, há alguma razão para levar a possibilidade do limite cognitivo a sério?

Sim. Dado que a maquinaria do pensamento humano é parte de nossa biologia, há sempre uma razão para suspeitar de que sofra de certos tipos de erros e pontos-cegos que limitam outros sistemas biológicos. Não temos certeza se os chimpanzés possuem a habilidade de pensar sobre a mecânica quântica, por exemplo. Talvez essa seja uma das limitações da carencia de linguagem. Mas se há partes da realidade que não estão acessíveis a outras espécies pensantes, por que devemos assumir que tudo nos está acessível?

Isso confirma que alguns aspectos da realidade estão além do nosso alcance, mas há outros aspectos que podemos utilizar para identificar o que esse aspecto pode se parecer. Será possível demarcar as fronteiras do pensamento humano?

A questão pode soar absurda. Você pode argumentar que se certos pensamento são impensáveis, então não podemos pensar sobre eles. E o que seria o impensável? Mas não há nada de paradoxal em tentar determinar onde os limitem se localizam. A chave envolve distinguir entre o pensar sobre um pensamento do modo como pensamos sobre ele. Assim como podemos saber o que não sabemos – conhecer o desconhecido – também podemos pensar sobre o que não podemos pensar: o pensar sobre o impensável, você diria (LOL).

Se as fronteiras dos pensamentos podem ter um limite, não há dúvidas que estamos muito longe de alcançá-las. Existem pensamentos – profundos e importantes – que nenhum ser humano ainda experimentou. Embora tenhamos pegado um longo caminho, quem sabe onde chegaremos?

Tim Bayne é um filósofo da psicologia da Universidade de Manchester, RU.

Extraído de The New Scientist

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