Como a ciência se torna errada

21 out

A pesquisa científica mudou o mundo. Agora ela precisa mudar também

Uma SIMPLES ideia está subjacente na ciencia: “confie, mas confirme”. Os resultados devem sempre estar sujeitos a desafios experimentais. Essa ideia simples, mas poderosa, gerou um vasto conhecimento. Desde seu nascimento no século XVII, a cienca moderna mudou o mundo além do imaginável, e se superou para melhor. Mas o sucesso pode dar origem a complascencia. Cientistas modernos estão dando muita confiança, mas poucas confirmações – para o detrimento de toda a ciencia, e da humanidade.

Muitos dos achados que preenchem os currículos das universidades são o resultado de experimentos ruins ou análises mal feitas (veja artigo). Metade das pesquisas publicadas envolvendo empresas biotecnológicas de capital aberto (capital de risco) não pode ser replicada, isso no melhor das hipóteses. Ano passado, pesquisadores de uma firma biotecnológica, Amgen, mostraram que só puderam reprozir 6 de 53 estudos-chave em pesquisas sobre câncer. Antes disso, um grupo da Bayer (companhia de remédios), conseguiu repetir somente ¼ de 67 artigos similarmente importantes. Gurus da ciência da computação acreditam que ¾ dos artigos publicados nessa subarea são falhos. No período de 2000-2010, por volta de 80 mil pacientes participaram de um estudo clínico baseado numa pesquisa que foi retratada posteriormente devido a erros e dados inapropriados.

Quanto lixo produzido…

Mesmo quando pesquisas falhas não colocam a vida de pessoas em risco – estando muito além das necessidades do mercado – elas gastam dinheiro e o esforço de algumas das melhores mentes do mundo. O custo da oportunidade perdida é difícil de se quantificar, mas é aparentemente complexa. E pode estar em ascenção.

Uma razão é a competitividade da ciencia. Nos anos de 1950, quando a pesquisa acadêmica moderna finalmente se moldou após seu sucesso durante a Segunda Guerra Mundial, era um campo muito raro. O número de cientistas mal chegava a casa de centenas de milhares. À medida que esse número inchou, para 6 a 7 milhões de pesquisadores ativos no último censo, os cientistas perderam o tino do auto-policiamente e do controle de qualidade. A obrigação do “publique ou pereça” se tornou uma regra na vida acadêmica. A competição por empregos é nada melhor que uma degola. Professores integrais no Brasil ganham uma media de $ 5 a 8 mil mensais – (ao contrário dos EUA, onde ganham $ 135 mil anuais, mais que magistrados). A cada seis anos, novos PhDs concorrem a uma vaga acadêmica. Hoje em dia, a verificação (e a replicação dos resultados de outras pessoas) tem efeito mínimo para a carreira do pesquisador. E sem a verificação, achados duvidosos permanecem até virarem erros.

A progressão da carreira também encoraja o exagero e os resultados excessivamente específicos. Em ordem de manter a exclusividade, os jornais científicos mais importantes impõem altos níveis de rejeição: um excesso de 90% dos manuscritos submetidos é rejeitado. Os achados mais importantes tem maior probabilidade de entrar na revista. Um em três pesquisadores conhecem um colega que modificou o artigo para, digamos, “excluir dados inconvenientes dos resultados”, baseando-se na “intuição”. E a medida que mais e mais grupos de pesquisa trabalham num determinado problema, ao menos um grupo se tornará vítima de uma confusão inocente entre o doce sabor de uma descoberta genuína e a loucura de um ruído estatístico. Tais correlações falsas são muitas vezes encontradas em jornais científicos recém-lançados famintos por artigos exclusivos.

Por outro lado, a falha de uma hipótese é raramente publicada. O jornal científico “Negative Results” conta hoje com somente 14% dos artigos publicados, abaixo dos 30% em 1990. Conhecer o que é falso é tão importante para a ciencia quanto conhecermos o que é verdade. O erro em relatar dados falhos significa que os pesquisadores jogaram dinheiro e esforços fora na tentativa de explorar caminhos já explorados por outros cientistas.

O sagrado processo do peer review pode também ser falho. Quando um jornal científico proeminente correu um experimento e o revisou a outros experts da area, a maioria dos revisores não conseguiu detectar erros e deliberadamente os deixaram no artigo, mesmo após saberem que tudo não passava de um teste.

Se quebrou, conserte

Todos esses erros são fundamentos imprecisos de uma empreitada dedicada a descobrir a verdade sobre o mundo. O que pode ser feito para reforçar a confiabilidade? Uma prioridade para todas as disciplinas poderia ser a exigencia de seguir o exemplo daqueles que fizeram experimentos sob os mais rigorosos padrões. Um começo poderia ser o reforço em estatística, especialmente em relação ao crescente número de áreas que peneiram dados para gerar gráficos mais bonitos. Os geneticistas tem feito isso, e descobriram uma avalanche de resultados ilusórios provindos do sequenciamento de genomas.

De modo ideal, os protocolos de pesquisa deveriam ser registrados e monitorados em notebooks virtuais. Isso poderia evitar a tentação de trapacear os experimentos, tornando os dados mais substanciais que aparentam ser. (Isso realmente acontece em estudos clínicos de medicamentos, mas a anuencia é constante). Onde possível, os testes de dados também deveriam estar abertos a outros pesquisadores para inspecioná-los e testá-los.

Os jornais científicos mais importantes já estão se tornando menos aversos a artigos sem grandes resultados. Algumas agências de financiamento, incluindo o NIH dos EUA, o qual gasta $ 30 blihões em pesquisas todos os anos, estão trabalhando um meio de encorajar a replicação. E um grande número de cientistas, especialmente os mais jovens, entende de estatística. Mas esses esforços devem ir muito além. Os jornais científicos devem ceder espaço para trabalhos “desinteressantes”, e agências de financiamento devem criar uma reserva para patrociná-los. O peer review deve ser enfatizado – ou talvez dispensado se houver uma avalição pós-publicação, na forma de comentários e apêndices. Esse sistema tem dado certo nos últimos anos nas áreas de Física e Matemática. Por último, uma política científica deve assegurar que o dinheiro público utilizado em pesquisas deva também seguir regras.

A ciencia ainda possui um enorme – algumas vezes exagerado – respeito. Mas esse privilégio está fundamentado na capacidade de estar certa na maioria das vezes, e de se autocorrigir quando algo dá errado. Os testes falsos se encontram em pesquisas ruins, consistindo de uma barreira imperdoável ao conhecimento.

Adaptado de The Economist

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4 Respostas to “Como a ciência se torna errada”

  1. Gabriel Filipe 30/11/2013 às 16:30 #

    Parabéns belo artigo.

  2. Richard Gomes 16/12/2013 às 20:12 #

    Um exemplo bastante importante é a recente revelação que, provavelmente, o HIV não seja causador isolado a AIDS, como se acreditava desce a década de 80. Houve interpretação ruim dos dados, pressão política e econõmica para que uma solução fosse encontrada rapidamente. Entretanto, com o passar do tempo, os erros iniciais ficaram evidentes. No momento, uma abordagem diferente está sendo empregada.

    Mais info: http://www.duesberg.com/viewpoints/kintro.html

    • Gabriel Bassi 17/12/2013 às 12:09 #

      Eu como Imunologista fico um pouco chateado em COMO as notícias são veiculadas. A questão do HIV não ser patogênico é um caso muito sério a ser analisado.

      Existem inúmeros trabalhos mostrando como o HIV age impedindo que as células do sistema imune possam exercer sua função.

      Até o momento NINGUÉM apresentou evidências coerentes sobre o HIV como “bom moço ferido”. É praticamente tudo fruto de grande especulação, sem dados científicos coerentes e publicações de peso.

      É preciso tomar cuidado com certas afirmações, principalmente em relação a questão HIV-AIDS. Por enquanto é tudo especulação (que, ao meu ver é uma imoralidade tremenda).

    • André Luzardo 23/12/2013 às 20:30 #

      Richard, na verdade quem está praticando mal a ciência é o Duesberg. Essa história de que o vírus do HIV não causa AIDS é pura picaretagem, conhecida também como negacionismo. A ciência por trás da AIDS e do vírus do HIV é sólida. Mais informações: http://rationalwiki.org/wiki/HIV_denial

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