Por que a Islândia não aparece nos Noticiários?

23 out

Um programa de rádio italiana exibiu um programa mostrando a contínua revolução islandesa, servindo de exemplo de como o mídia nos explica tão pouco sobre o mundo. Os estadounidenses podem se lembrar que no início da crise financeira de 2008, a Islândia literalmente faliu. As razões dadas pela mídia foram somente superficiais e, desde então, esse pequeno país europeu (não participante da união européia) caiu em esquecimento.

Mas há outras coisas que a mídia não quer que você saiba (principalmente os banqueiros).

O Verão Islandês

Cinco anos de um regime puramente neo-liberal tornou a Islândia (com uma população de 320 mil habitantes, e sem forças armadas) um dos países mais ricos do mundo. Em 2003, todos os bancos do mundo foram privatizados e, num esforço de atrair mais investidores, ofereceram uma linha bancária que continha baixos custos e altas taxas de retorno. O programa, chamado de IceSave, atraiu muitos pequenos investidores ingleses e holandeses. Mas à medida que os investimentos cresceram, também se aumentou a dívida externa. Em 2003, a dívida islandesa chegava a 200 vezes seu produto interno bruto (PIB), mas em 2007, chegou a 900%. Com a crise financeira de 2008, veio a gota d’água. Os três maiores bancos islandeses, Landbanki, Kapthing e Glitnir, faliram e foram nacionalizados, enquanto outro, Kroner, perdeu 85% de seu valor de mercado em relação ao Euro. E ao final do ano a Islândia declarou falência.

Contrário ao que se espera, a crise resultou na recuperação dos prejuízos pelos islandeses por meio de um processo de democracia participatória direta, a qual eventualmente levou a uma nova constituição. Mas isso somente após muito sofrimento popular.

Tentado Respirar

Geir Haarde, o primeiro ministro da coalisão social-democrata do governo, negociou 2 milhões e 100 mil dólares em empréstimos, dos quais os países nórdicos adicionaram mais outros 2, 5 milhões. Mas a comunidade financeira extrangeira pressionou a Islândia a sancionar pesadas medidas de reestruturação. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Européia (EU) queriam quitar a dívida Islandesa, dizendo ser a única maneira do país pagar os dividendos com a Holanda e a Grã-Bretanha.

Protestos começaram, eventualmente forçando o país a não aceitar o acordo. Eleições foram feitas em abril de 2009, resultando numa coalisão de esquerda que condenou o sistema econômico neo-liberal, mas que forçava o pagamento imediato dos 3,5 milhões de euros. Isso significava que cada islandês deveria pagar 100 euros por mês ($ 130) por 15 anos ao juro de 5,5% a.a., para pagar a dívida contraída de empresas privadas por outras empresas privadas. E isso foi a gota d’água.

Iceland turns Fireland

O que aconteceu depois foi extraordinário. A obrigação de que cada cidadão deveria pagar pelos erros de um monopólio financeiro, de que uma nação inteira deveria ser forçada a pagar dívidas privadas de empresas com dívidas com outras empresas (bancos principalmente), transformou o relacionamento entre cidadãos e instituições políticas. Esse processo levou os líderes islandeses a formular uma nova constituinte. O chefe de Estado, Olafur Ragnar Grimsson, se recusou a ratificar a lei que responsabilizaria os cidadãos islandeses pelas dívidas de banqueiros, e chamou a população para um referendo.

É claro que a pressão internacional aumentou. A Grã-Bretanha e a Holanda ameaçaram impor fortes sanções econômicas que poderiam isolar o país. À medida que os islandeses iam às urnas, os bancos extrangeiros ameaçaram cortar qualquer ajuda provinda do FMI e o governo britânico ameaçou congelar os ativos de islandeses depositados em seu país. Como Grimsson disse: “Nos disseram que se recusássemos as condições da comunidade internacional, poderíamos nos tornar a Cuba do hemisfério norte. Mas se aceitássemos, poderíamos nos tornar o Haiti no hemisfério norte” (quantas vezes escrevi que quando cubanos vêem o estado [geral] de seu vizinho, o Haiti, eles se consideram com sorte).

Em março de 2010 ocorreu o referendo: 93% votaram contra o pagamento da dívida. O FMI imediatamente congelou seus empréstimos ao país. Mas a revolução (embora não televionada nos EUA) não se intimidou. Com o apoio de uma população furiossa, o governo lançou investigações civis e penais sobre os responsáveis pela crise financeira. A interpol enviou mandados de prisão para o ex-presidente da Kaupthing, Sigurdur Einarsson, como o único banqueiro envolvido na quebra financeira que assolou o país.

Evitando Mãos Externas

Mas os islandeses não pararam por aí: decidiram criar uma nova constituição que livra o país do poder exagerado da economia internacional e do dinheiro virtual. (a primeira constituição foi escrita (e copiada) quando a Islândia se tornou independente da Dinamarca, em 1918, a única diferença em relação à constituição dinamarquesa é a substituição da palavra “rei” por “presidente”).

Para escrever uma nova constituição, os islandeses elegeram 25 cidadãos entre 522 adultos que não pertenciam a nenhuma partido político, mas que foram recomendados por pelo menos 30 cidadãos. O documento não foi obra de políticos ardilosos, mas foi escrita via internet. As reuniões sobre a constituinte eram feitas via internet, e os cidadãos podiam enviar seus comentários e sugestões, testemunhando a criação do documento à medida que tomava forma. A constituição eventualmente foi finalizada com a absoluta participação democrática, sendo submetida ao parlamento para aprovação e posterior sanção do presidente.

Olhando o Vizinho

Alguns leitores irão se lembrar que o colapso agrário Islandês, ocorrido no século IX, foi descrito no livro homônimo de Jared Diamond. Hoje o país se recupera de seu colapso financeiro de um modo completamente oposto àquilo antes considerado impossível, como confirmado pelo chefe do FMI, Christine Lagarde. Gregos têm dito que a privatização de seu setor público é a única solução para a crise. E italianos, espanhóis e portugueses encaram o mesmo problema.

Esses países deveriam olhar para a Islândia, a qual não se curvou aos interesses extrangeiros. Esse pequeno país gritou alto e claro que seus cidadãos estavam em sofrimento.

E é por isso que a Islândia não aparece mais nos noticiários.

Adaptado de Bella Caledonia

Anúncios

6 Respostas to “Por que a Islândia não aparece nos Noticiários?”

  1. Amilcar 23/11/2013 às 20:20 #

    Um artigo com perfil ideológico, não cético.

  2. Losovoi 25/11/2013 às 09:50 #

    Ok, mas a Islândia é um país pequeno e, penso, com uma população homogênea.

    • Gabriel Bassi 26/11/2013 às 08:41 #

      Sim, sem dúvidas. Mas

      1) Apesar de uma país pequeno, conseguiu desenvolver um sistema democrático completamente à parte do mundo capitalista. Além disso, havia muito ceticismo em relação à política econômica que poderia ser adotada para alavancar o país (já que o sistema comumente implantado era aquele imposto aos países subdesenvolvidos). E a Islândia conseguiu algo inédito, baseando-se diretamente na população para a formulação da constituição.

      2) O que a população homogênea tem em relação ao caso descrito?

  3. Richard Gomes 17/09/2014 às 18:51 #

    Estrangeiro é com S e não X.

    Com relação ao conteudo do artigo: É bem interessante. Entretanto, vejo o texto com ceticismo, já que diversos detalhes não foram revelados.

    Encontrei um artigo que talvez sirva de contraponto. Segue o link abaixo.
    Destaco dois pontos:
    (1) O banco kaupthing (que faliu) tinha um balanço quatro vezes maior que GDP do país. Talvez esse tenha sido um dos motivos para deixar o banco rolar: porque talvez não seria possivel ao socorrer o banco.
    (2) O artigo cita o caso de um policial que hoje deve mais pela hipoteca de sua casa do que devia quanto tomou o dinheiro emprestado, em 2006.

    Portanto, todas as argumentações apresentadas apontam mais para uma solução distinta do convencional do que para uma solução que tenha poupado a população de pagar o preço da crise.

    Entendo a argumentação quanto a não socorrer bancos, que faz sentido por um aspecto, mas prooca uma reação em cadeia em toda a sociedade, que pode ser tão ou mais perniciosa que socorrer os bancos.

    Em UK foram injetados 770 bilhões de libras na economia durante o período do Credit Crunch, sendo parte desse dinheiro chamada QE (quantitative easing): imprimir moeda. Na época, 770 bilhões de libras seriam algo como 3 trilhões de reais. É, sem dúvida, um monte de dinheiro.

  4. Mário Jorge 09/12/2015 às 19:01 #

    A Cuba do hemisfério norte, o Haiti do hemisfério norte. Ambos são do hemisfério norte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: