Como o excesso de educação pode ser socialmente prejudicial

5 nov

A febre educacional da Coréia do Sul e seus efeitos colaterais

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Poucos países fizeram melhor que a Coréia do Sul ao longo dos últimos 50 anos. Sua economina cresceu 17 vezes, o governo evoluiu de uma ditadura austera para uma democracia confusa, e sua cultura, machucada pela ditadura, fascina o mundo com sua música, óperas ostentosas e cinemas. Estudantes se empolgam com a velocidade e a precocidade de seu “desenvolvimento espremido”.

As únicas pessoas que não ficam impressionadas com o desenvolvimento da Coréia do Sul são os próprios sul coreanos. A prosperidade que seus habitantes disfrutam não aliviou a pressão da competição pela qual são submetidos. Para eles, o desenvolvimento do país está esprimido de muitas maneiras. Seu sucesso está confinado em somente alguns poucos grandes empregadores e indústrias. As fábricas do país são mais impressionante que o serviço oferecido, embora produzam a maioria dos empregos. E a produção em grandes conglomerados, de propriedade de família tradicionais (o chaebol), reina, e é muito melhor que de pequenos grupos.

Porém os ambiciosos sul coreanos imploram por um emprego nas migalhas da prósperas economia. Medicina, direito, finanças e o governo se mantém entre as mais populares, mas o chaebol agora aparece em destaque. Como os serviços civis e as profissões, a Samsung, Hyundai e seus associados precisam contratar pessoas diretamente das melhores universidades, diminuindo muito as chances das pessoas mais velhas. Isso cria uma faca de dois gumes no mercado de empregos. Há somente uns poucos empregados a serem escolhidos, e somente uma única chance real de se juntar a esse pequeno grupo. Então os mais jovens gastam anos laureando seus currículos e se preparando para os exames – especialmente os testes feitos aos 18 anos, os quais determinam as universidades.

Isso aparentemente é um problema ínfimo, no qual inúmeros países ocidentais adorariam possuir: é difícil imaginar pais britânicos ou estadounidenses discutindo com seus adolescentes para estudarem menos. Os sul coreanos estão entre os países com os maiores índices de leitura, matemática e ciências. Mas há custos. Gasta-se muito para ter um custoso currículo e se investe pouco no aprofundamento do aprendizado. As crianças são programadas para passarem nos testes, não a aprenderem algo. O sistema exclui o desenvolvimento de talentos tardios: os quais surgem por volta dos 25 anos, e mesmo assim é tarde. E, em linhas gerais, a Coréia do Sul é um país pequeno, de população pequena. Os gastos com a educação das crianças para os exames é uma das razões pelas quais as mulheres sul coreanas têm muito poucos filhos. Com a menor taxa de fertilidade entre os países desenvolvidos, os problemas sul coreanos estão crescendo em ritmo acelerado. O país corre um sério risco de se tornar um país “super-idoso” por volta de 2026, sem contar os suicídios de jovens.


Raízes Históricas

Colégios para meninas em Seul são a prova viva que os sul coreanos levam a educação a sério. As estudantes, entre 15 e 18 anos, se curvam respeitosamente a qualquer momento em que passe um professor. Muitas delas têm aulas (incluindo as extra-curriculares) entre as 6 a.m. até as 9 p.m. Mas por que elas estudam tanto? Chang Byong-gap, o diretor, ri diante da questão.

A paixão da Coréia do Sul pela educação possui raízes históricas. Nos primeiros anos da dinastia Choson, a qual durou entre 1392 e 1910, aqueles indivíduos que passavam pelo exame para serviços reais poderiam entrar na classe privilegiada yangban, uma erudita aristocracia. Essas raízes foram reforçadas por uma história mais recente, nota Michael Seth, autor de “Education Fever” (Febre da Educação). Sob o domínio colonial japonês entre 1910 e 1945, as aspirações educacionais coreanas foram frustradas, resultando no fechamento da demanda. Durante a carnificina da Guerra da Coréia, entre 1950-53, muitas das antigas hierarquias sociais foram eliminadas, convencendo as pessoas de que poderiam atingir o sucesso por meio de seus próprios esforços.

Em 1945, a taxa de alfabetismo entre os adutos era por volta de 22%, por volta de 1970, a taxa subiu para 87,6%, e por volta dos anos de 1980, algumas fontes estimam 93%. Nas primeiras décadas da república sul coreana, o governo tentou manter o empenho na “febre da educação”, construindo escolas e contratando professores freneticamente. De um dos países mais pobres do mundo na década de 1960, hoje ela é a 13ª economia mundial.

Antes de 1971, as crianças eram mantidas nas escolas em dois turnos, pois não havia espaço para conter seu número. No mesmo ano houve a abolição do exame de entrada para o ensino médio, o que acarretou no aumento da competição pelos colégios. Por volta de 1980, quase todo estudante de escola primária ia para o ensino médio com 11 anos. Em 1995, o governo prometeu conduzir uma “edutopia”, encorajando a criação de universidades privadas. O resultado foi uma competição insana pelos exames de admissão em universidades. Facilitando-se a competição num determinado nível educacional, intensificou-se a competição no próximo nível.

Em resposta, a educação superior teve um boom. A proporção de estudantes que saíam do ensino médio diretamente para o superior cresceu de 40% nos anos de 1990 para quase 84% em 2008. Mas desde então a taxa vem decaindo (ver tabela). A obsessão nacional dos sul coreanos, com níveis cada vez mais altos de educação, aparentemente chegou a um limite.


Por favor, parem de estudar!!

A educação sul coreana é sem precendentes em qualquer outro país do mundo. Alguns estudantes passam mais de 18 horas por dia na frente de livros, sem incluir o período das tarefas domésticas. Em décadas mais recentes, o governo tentou baixar essa febre da educação

Em 1980, o governo tornou ilegal aulas extras particulares, tornando-as clandestinamente funcionais. Em 2000, esse sistema foi declarado inconstitucional. Desde então, esforços foram feitos para aliviar a febre da educação. Seul impôs um toque de recolher as 10p.m. nas escolas, mas os alunos ainda poderiam driblar o toque pelo aprendizado via internet. Atualmente o governo pretende introduzir semestres sem exames em todas as escolas de ensino médio em 2016, dando aos alunos uma oportunidade de pararem de estudar. oO

Aprender uma língua a mais se tornou uma “neurose coletiva”, de acordo com um professor. Algumas mães se mudam com suas crianças para um país de língua inglesa. Uma alternativa mais barata é gastar as férias numa vila inglesa dentro da Coréia do Sul, tal como a Vila Inglesa Gyeonggi, um lugar com cabines telfônicas vermelhas e onde se fala somente inglês.


Jovens Deprimidos e Talentos Desperdiçados

O estresse de falhar ou não atingir as demandas pode ser muito para os estudantes. Um estudo mostrou que as crianças sul coreanas estão entre as menos felizes do mundo desenvolvido. Além disso há uma alta taxa de suicídio entre os jovens, com 40 suicídios ocorrendo todos os dias. E uma educação intensiva e a necessidade de entrar em uma boa universidade podem ser alguns dos fatores, pois há um grande abismo econômico-social entre aqueles que enfrentaram uma universidade daqueles somente com ensino médio.

O currículo de grande parte das escolas é focada no exame de admissão em universidades. Os exames são feitas uma vez ao ano, alguns se preparando desde o ensino infantil. E ninguém se surpreende porque os exames não possuem testes sobre habilidades esportivas, artes, música ou até mesmo literatura ou poesia. Na Coréia do Sul, as aulas de Educação Física não são consideradas importantes, não sendo uma disciplina da educação. Isso faz com que muitas escolas careçam de ginásios de alta qualidade e (principalmente) de atletas. Outro ponto


A Febre se Combate com… Febre

No passado, os pais pressionavam as crianças para entrar numa universidade, seja qual for sua aptidão ou inclinação, diz Seo Nam-soo, o ministro da educação. Alguns queriam que suas crianças fizessem ensino superior porque nunca puderam ter essa chance para si próprios. Mas um grande número de pais hoje acredita que suas crianças devem fazer aquilo que as tornam felizes, diz ele.

Os pais podem também ser dissuadidos pelos custos. Durante o período escolar, os pais gastam uma quantidade extraordinária de dinheiro preparando seus filhos para o brutalmente competitivo exame de entrada nas universidades, o suneung. Os gastos com a educação contam com quase 12% dos custos da família todo ano.

O custo da educação pode ser um dos principais motivos pelos quais os sul coreanos possuem poucos bebês. Em levantamentos, os pais citam os custos financeiros como o maior obstáculo e a uniformidade educacional como os componentes mais influentes. Thomas Anderson e Hans-Peter Kohler, da Universidade da Pensilvânia, mostraram que as províncias sul coreanas com os níveis de fertilidade mais baixos também são os lugares onde mais se gastam com educação.

Este gasto, porém, não significa retornos favoráveis. Ir para uma universidade significa pagar altas mensalidades e manter os jovens fora do mercado de trabalho por pelo menos quatro anos. Após a graduação, leva-se uma média de 11 meses para encontrar seu primeiro emprego. E uma vez encontrado, os empregos são bem pagos e mais seguros que as posições disponíveis para os graduados somente no ensino médio, mas o gargalo está se estreitando. O Instituto Global McKinsey reconhece que o valor agregado ao longo da vida de um aluno graduado somente no ensino médio não mais justifica os gastos de se obter um ensino superior. O coreano típico sentir-se-ia melhor somente como secundáriopara o mercado de trabalho.

Se os custos privados não valem mais a pena, seus custos sociais são ainda maiores. Muitos dos gastos destinados em instituições privadas é socialmente inútil. Apesar do dinheiro poder comprar um melhor diploma, não faz do estudante algo mais útil a economia. Se um estudante gasta mais para aumentar seu prestígio, pode conseguir um emprego melhor, mas somente as custas de outro. Isso é, há uma eterna comparação de currículos, forçando os sul coreanos a tentarem sempre serem o melhor, e deixando de lado outros aspectos que poderiam auxiliar a sociedade.

Os estudantes gastam grandes quantidades de dinheiro e tempo para aumentar seu prestígio enquanto esperam por bons empregos. Mas só se tem lista de espera para algo que está em falta. Então por que os bons empregos são racionalizdos? O número de “bons” empregados deveria, em princípio, expandir-se proporcionalmente a habilidade e o prestígio disponível dentro da força de trabalho. Então talvez a preocupação com as qualificações educacionais reflitam os problemas dentro do mercado de trabalho. Lei da oferta e da procura?

Os sul coreanos sabem que os bons empregos são racionalizados. Universitários aspiram trabalhar no governo e em empresas aliadas, isso é, os bancos do chaebol, conglomerados sul coreanos pertencentes a famílias tradicionais. Esses empregadores fornecem empregos seguros, bem pagos e prestigiosos pelos quais o resto do mercado de trabalho não pode competir. Os sul coreanos referem-se a alguns deles como “lugar dos deuses”. Alguns dos melhores lugares são conhecidos como “lugares onde nem mesmo deus conhece” (olimpos).

Os abastados da educação então estão preparados para “esperar” por esse tipo de emprego, acumulando experiências profissionais e até mesmo encarando uma pós-graduação (para cobrir o desemprego) até que um emprego esteja disponível. Dos 5,4 milhões de sul coreanos entre 15 a 29 anos, economicamente ativos, 11% estão se preparando para os vários tipos de exames profissionais desses olimpos.


O Escalonamento Social

E ênfase social na educação possui problemas graves, a qual proporciona o acentuamento das diferenças entre classes. No final dos anos de 1980, ter um diploma universitário era considerado necessário para a entrada na classe média, exceto pela carreira militar. Pessoas sem educação superior, como trabalhadores braçais, muitas vezes eram considerados cidadãos de segunda classe por seus patrões (com ensino superior), apesar de sua importância para o desenvolvimento da economia.

Uma divisão similar prevalece entre os trabalhadores braçais. A Hyundai, a qual produz 40% dos carros vendidos na Coréia do Sul, possui 59800 empregados regulares, assim como 6000 empregados “temporários”, muitas vezes por companias terceirizadas especialmente para esse propósito. Os dois tipos de empregados fazem as mesmas coisas no mesmo local, mas os temporários recebem somente 70 a 85% do salário dos regulares.

Os regulares são representados por uma união de 19 líderes em tempo integral, pagos pela compania. Nas escadarias dos escritórios da união, um desenho mostra uma horda de homens maltrapilhos defronte ao seu capataz. Dentro, os membros da união estão votando a finalização de seu último trabalho. Eles fizeram uma longa lista de demandas, uma das quais, em particular, causou alvoroço público. A Hyundai subsidia a educação superior dos filhos de seus trabalhadores. A união quer também o subsídio vocacional para as crianças que não atendem aos colégios. Moon Young-moon, um dos líderes da união, o qual trabalhou na Hyundai por 27 anos, diz que é algo mundano. Isso não passa, no final das contas, uma política do governo para “remover a pressão social de entrar numa universidade”.

Nem todos os empregos do chaebol são bons, mas, do ponto de vista dos sul coreanos, a maioria dos bons empregos ainda são dos chaebol. Será sempre assim?


Aprender ou Decorar?

Devido a estes problemas e ao extremo sistema de educação, privando os alunos da criatividade em nome de uma posição social, a Coréia do Sul é constantemente criticada devido a falta de criatividade e a forte dependência de aulas extra-curriculares.

Um efeito contraditório desse excesso de educação é a carência de grandes mentes na ciência, literatura, esportes e geopolítica (o máximo que a Coréia do Sul conseguiu em geopolítica foi nomear Ban Kin-moon para Secretário Geral da ONU que, ao meu ver, deixa muito a desejar). Com isso, não há Prêmios Nobéis para Sul Coreanos (exceto o Nobel da Paz ao ex-presidente Kim Dae-jung pelos esforços de aproximação com a Coréia do Norte), um efeito contraditório em relação ao seu nível educacional.

Mas, curiosamente, a Coréia do Sul se tornou um país extremamente tecnológico, com relativo pouco desenvolvimento em ciência. Isso significa que o país está propenso a desenvolver idéias práticas, rápidas e integrais para o cotidiano (como os celulares, carros e arranha-céus invisíveis) a lenta descoberta de como a natureza funciona (por meios racionais).


As Alternativas

Apesar de sua escolaridade exemplar, nenhuma das garotas do Colégio Mirim este ano pretende seguir uma carreira superior em período integral. O colégio é uma das 35 escolas modelo criadas pelo último presidente, Lee Myung-bak, num esforço de aumentar o prestígio da educação vocacional, quebrando o movimento contínuo para as universidades pretendido pelos pais dos sul coreanos, dos quais 93% querem que seus filhos tenham nível superior. As escolas, modeladas a partir do modelo alemão, tem como objetivo produzir mestres em trocas de informação a eruditos de livros. O Colégio Mirim concentra-se na programação e design de aplicativos para smartphones e tablets.

O governo deveria fazer três coisas. Primeiramente, excluir as regulamentações que divide o mercado de empregos: empregados permanentes recebem mais do que valem, e empregados temporários recebem menos. Segundo, encorajar mais empresas, incluindo as estrangeiras, a se expandirem em indústrias, hoje dominadas pelo chaebol, aumentando o leque de empregos alternativos. E a terceira, deve pressionar o chaebol a expandir seus serviços, o qual se recusa a fazê-lo. Mercado no varejo, turismo e transporte local necessitam de um chaebol responsável e eficiente.

A Coréia do Sul encantou omundo com seu desevolvimento esprimido. Para o bem dos pais estressados e dos filhos workaholics, ela precisa de um pouco de descompressão.

Adaptado de: The Economist; New Politics

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