Racismo por todos os lados

16 dez

Ainda habitamos a pré-história da nossa raça, e ainda não nos familiarizamos com as imensas descobertas sobre a nossa própria natureza e sobre a natureza do universo. O desenrolar da meada do genoma efetivamente aboliu o racismo e o criacionismo, e os resultados surpreendentes do Hubble e de Hawking nos permitiram estimar as origens do cosmos. Mas quão mais viciante é o familiar e velho lixo sobre tribos e nações e fé. (Hitchens, 2001)

Meu tratamento sobre a questão do racismo foi um exemplo do fascínio que esse tópico ainda suscita: em apenas um dia o Blog Cético recebeu quase 4 mil acessos, sendo que normalmente os acessos diários não passam de 20 ou 30. Como não poderia deixar de ser, o post também recebeu fortes objeções nos comentários do blog, no facebook e em conversas pessoais, o que é muito positivo.

Antes de responder a essas objeções gostaria de advertir o leitor (e eu mesmo) contra duas armadilhas cognitivas comuns em discussões altamente politizadas como essa: a emoção e o pensamento de grupo. Uma forte reação emocional tende a minar qualquer possibilidade de análise racional, o que naturalmente deve ser evitado a todo custo. Já o pensamento de grupo é um viés muito mais sutil. Trata-se da tendência humana de desligar o senso crítico e simplesmente seguir a opinião vigente do seu grupo ideológico, partido político, círculo de amizades, família, religião, etc. Minhas próprias posições pessoais tendem a me situar a esquerda no eixo político: sou a favor de uma ampla rede de benefícios sociais, liberdades individuais, saúde, educação, transporte e comunicação públicos, imposto de renda progressivo, alta tributação da riqueza e o fim de paraísos fiscais. Meu suporte a essas e outras causas deriva (ou pelo menos eu acho que deriva) do exame das evidências em favor de cada uma no que concerne o bem-estar e desenvolvimento humano. Porém minha inserção no grupo de “esquerda” me torna suscetível a aceitar, ou pelo menos ser menos crítico, de outras posições que venham igualmente rotuladas. É essa suscetibilidade, esse viés no próprio pensamento, que o cético racionalista deve identificar e (pelo menos tentar) prevenir.

Me sinto na obrigação de ressaltar também que a minha é uma crítica construtiva. A aplicação do ceticismo e pensamento crítico é indispensável para o sucesso de qualquer iniciativa, incluindo política e movimentos sociais. Mesmo a melhor das intenções pode terminar tendo consequencias desastrosas se o projeto estiver contaminado por falácias e viéses. É nesse sentido que ofereço essa crítica, como uma tentativa de identificar falhas no raciocínio, para que assim possamos tentar saná-las e melhorar a luta contra o racismo e a desigualdade.

O que quero dizer quando sugiro que a ascensão da consciência racial fomenta o racismo? Primeiro, não estou querendo dizer que os defensores da consciência racial estão inventando um problema que antes não existia. Racismo existe sim no Brasil e provavelmente sempre vá existir dada a história evolutiva de nossa espécie. O que quero dizer é que criar uma consciência racial só tende a piorar o problema.

Ser oposto ao racismo no universo pós-genoma é ser oposto ao conceito. Esta constatação está atrasada com relação a realidade. Pseudocientistas que trabalham em supostas “provas” da correlação entre QI e “raça” são agora justamente criticados por causa da opacidade e arbitrariedade da definição de “inteligência”, para não falar do suposto e multiforme “quociente.” Mas eles são certamente muito mais vulneráveis em sua suposição de que a “raça” de uma pessoa pode ser definida com qualquer exatidão. (Hitchens, 2001)

O racista concorda com a ideia de que existem traços físicos e psicológicos que permitem classificar humanos em raças. O que ele ainda não entendeu é que essa ideia não passa de pseudociência. Seres humanos não formam grupos genéticos homogêneos, ao contrário, somos todos uma mistura de diversos genes. Um branco que despreze negros está, de acordo com a genética, colocando-se na ridícula posição de desprezar os genes que produzem melanina, uma variante dos quais ele mesmo também possui.

"Sou negro não pela cor da minha pele, mas pela cultura que exerço." Crer em uma distinção cultural entre brancos e negros não é também uma manifestação do racismo?

“Sou negro não pela cor da minha pele, mas pela cultura que exerço.” Crer em uma distinção cultural entre brancos e negros não é também uma manifestação do racismo?

Da mesma forma, não há evidências para pensar que negros ou brancos possuem características psicológicas distintas, com culturas e interesses distintos. É triste o suficiente ver racistas brancos tentando apropriar-se de realizações culturais que nada tem a ver com cor ou raça, como fez Monteiro Lobato:

Paiz de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é paiz perdido para altos destinos. André Siegfried resume numa phrase as duas attitudes. ‘Nós defendemos o front da raça branca – diz o Sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brazil’. Um dia se fará justiça ao Klux Klan (…) que mantem o negro no seu lugar.

Mas a resposta não está em criar o mito de uma cultura ou identidade negra. Essa seria apenas outra manifestação do mesmo racismo. Não há nada na cor que determine o destino de um país, produções artísticas, culturais ou científicas. Não é por ser branco que se gosta de ópera ou por ser negro que se gosta de funk. A paisagem que emerge do nosso entendimento científico atual mostra que as diferentes realizações culturais e científicas de diversos povos foram e continuam sendo muito mais determinadas por fatores ambientais e geográficos que genéticos (ver “Armas, Germes e Aço” de Jared Diamond). Isso não é negar o papel dos genes; há algumas evidências de que parte de nossa personalidade e habilidades mentais seja determinada por fatores genéticos. Mas esses genes não parecem distribuir-se de maneira desigual em um povo ou outro. Por outro lado, há fortes evidências de que o ambiente tem um papel fundamental no desenvolvimento cultural e cognitivo.

E é aqui que o risco de se deixar levar por emoção, falácias e viéses fica evidente. Ao fomentar a criação de uma identidade ou consciência racial e insistir em interpretar cada desvio da igualdade numérica entre brancos e negros como manifestação de racismo, não estamos apenas aumentando o racismo. Estamos também desviando nossa atenção de um dos maiores agentes causadores de desigualdade no Brasil: a falta de mecanismos efetivos para quebrar o ciclo da pobreza que vem desde os tempos da escravidão. Cabe ao governo criar esses mecanismos, mas este só responde à pressão popular quando essa já é insustentável. A pressão popular ainda é pequena, e os movimentos sociais que deveriam liderar essa campanha perdem tempo e fôlego com uma interpretação errada do problema. O resultado são as cotas raciais. Enquanto isso as favelas continuam a crescer, famílias pobres continuam sem acesso aos benefícios necessários para deixar a pobreza, os filhos dessas famílias continuam a desenvolver-se em um ambiente desestimulante e hostil a educação. Uma ou outra dessas crianças agora poderá ingressar na faculdade pelas cotas, o que é certamente positivo. Mas quase nada foi mudado, o sistema continua o mesmo e a desigualdade e o racismo também.

Racismo ou desigualdade econômica?

Foto ‘meme’ postada em um grupo no Facebook, e que questiona a democracia racial brasileira. Mas isso é o resultado do racismo ou de um ciclo inquebrável de pobreza que vem desde a escravidão?

É necessário estabelecer metas realísticas. Erradicar o racismo e a desigualdade talvez seja um objetivo demasiado utópico. Há que entender nossas próprias limitações como primatas nus que somos. Mas dentro destas limitações parece ser perfeitamente possível reduzir em muito a desigualdade atacando as suas causas: a falta de mecanismos para distribuição de renda e quebra do ciclo da pobreza. Também parece muito possível reduzir o racismo atacando sua origem: a ignorância sobre as descobertas da genética, da evolução e da psicologia.

Durante anos, quando ia renovar o meu passe anual no Senado dos Estados Unidos, eu precisava preencher dois formulários. O primeiro pedia meus dados biográficos e o segundo estipulava que eu tinha assinado o anterior sob pena de perjúrio. Eu era grato pelo último formulário, porque quando solicitado a declarar a minha “raça” eu sempre colocava “humano” na caixa necessária. Isto conduzia a uma briga anual. “Coloque ‘branco'”, me foi dito uma vez — por um funcionário Afro-Americano, devo acrescentar. Expliquei que branco não era nem mesmo uma cor, e muito menos uma raça. Também chamei sua atenção para a provisão de perjúrio, que me obrigava a declarar apenas a verdade. “Coloque ‘caucasiano,'” me foi dito em outra ocasião. Eu disse que não tinha nenhuma conexão com o Cáucaso e nenhuma crença na etnologia fora de moda que tinha produzido essa categoria. Assim continuou até que em um certo ano não havia mais o espaço para raça no formulário. Gostaria de reivindicar o crédito por isso, embora eu provavelmente não possa. (Hitchens, 2001)

Referências

Hitchens, C. “Letters to a Young Contrarian.” Basic Books, 2001.

Para entender melhor os fatores que levaram a desigualdade entre os povos, recomendo o livro e documentário de mesmo nome “Armas, Germes e Aço” de Jared Diamond.

Para um tratamento mais direto sobre o abuso do termo “racismo” por certos intelectuais, indico o vídeo abaixo de Pat Condell.

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8 Respostas to “Racismo por todos os lados”

  1. Raphael 17/12/2013 às 12:04 #

    Liberdade individual não é um viés de “esquerda” e sim de “direita”… O pensamento esquerdista tende a pensar mais em um conceito de “liberdade coletiva” (regulações de comportamento, exemplo típico são as restrições a fumantes) do que no de liberdade do indivíduo…

    • André Luzardo 17/12/2013 às 12:17 #

      Bom, pode ser mesmo. Mas também acredito em algumas liberdades coletivas, como essa de restringir o fumo em lugares fechados. A ideia aqui é que pensar racionalmente implica avaliar cada proposta puramente com base em evidências, e não baseado no rótulo de “esquerda” ou “direita”.

  2. caio 18/12/2013 às 00:09 #

    André, senti falta de referências menos genéricas. Há muitos que estudam a questão já há muito tempo, para a discussão ganhar em qualidade devemos ler a bibliografia que tais estudiosos já produziram. Um bom exemplo é o trabalho do Kabengele Munanga, da USP. Podemos concordar ou não com ele (particularmente concordo com alguns pontos), mas é impossível que a opinião dele não seja levada em conta, é de alto nível. A seguir, posto um artigo, como exemplo: https://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=59

    • André Luzardo 18/12/2013 às 11:35 #

      Caio, obrigado pela referência. O texto ressalta em mais detalhe muito do que eu também tratei neste e no post anterior. Porém em alguns pontos sou forçado a discordar do autor:

      “Os americanos evoluíram relativamente em relação ao Brasil, pois além da supressão das leis segregacionistas no Sul, eles implantaram e incrementaram as políticas de “ação afirmativa”, cujos resultados na ascensão sócio-econômica dos afro-americanos são inegáveis.”

      Novamente há aqui um desejo de dividir a raça humana em grupos de raça, cor ou etnia, e oferecer um tratamento diferenciado a cada um deles. Esta continua sendo uma lógica racista, mesmo que os resultados sejam positivos em termos de ascensão sócio-econômica. Me parece também inegável que os ganhos na área sócio-ecônomica americana foram ofuscados pelas perdas com o racismo. Qualquer um que visite os USA pode verificar essa tensão racial na forma de agressão, guetos, grupos de ódio racial e pouquíssima miscigenação. Há que se questionar se os mesmos ou melhores resultados de ascensão sócio-econômica não poderiam ser alcançados por outro método que não envolvesse racismo. Eu acho que sim. O bolsa família é um exemplo embora seja, claro, muito pouco. Mas há outros benefícios que o Brasil ainda nem sequer cogita implementar, e que talvez cogitaria se não estivéssemos desperdiçando energia com um pensamento ainda contaminado pelo racismo.

      Não sei se consegui extrair uma conclusão clara to texto, vejamos: “É a partir da tomada de consciência dessas culturas de resistência que se constroem as identidades culturais enquanto processos e jamais produtos acabados. São essas identidades plurais que evocam as calorosas discussões sobre a identidade nacional e a introdução do multiculturalismo numa educação-cidadã, etc. … A questão é saber se todos têm consciência do conteúdo político dessas expressões e evitam cair no biologismo, pensando que os negros produzem cultura e identidade negras como as laranjeiras produzem laranjas e as mangueiras as mangas. Esta identidade política é uma identidade unificadora em busca de propostas transformadoras da realidade do negro no Brasil. Ela se opõe a uma outra identidade unificadora proposta pela ideologia dominante, ou seja, a identidade mestiça, que além de buscar a unidade nacional visa também a legitimação da chamada democracia racial brasileira e a conservação do status quo.”

      Acho que aqui o autor entrou, sem querer talvez, em um pensamento de grupo. Seu desejo de se distanciar da “ideologia dominante” faz com que ele reprove o conceito de identidade mestiça e prefira, ao invés, um multiculturalismo não-biológico por assim dizer. Também não me sinto inclinado a defender posições dominantes, mas como pensador livre devo seguir a lógica e as evidências, e não partidarismos. Tenho minhas ressalvas quanto a esse multiculturalismo que o autor propõe. Esse problema me parece análogo ao problema do secularismo em um país de diversidade religiosa. A melhor maneira de um estado garantir a liberdade religiosa é não endossando nenhuma religião. E dado que não é possível contemplar todas as religiões o melhor a fazer é não contemplar nenhuma. Não seria o caso que para garantir a liberdade cultural o estado não deveria endossar nenhuma cultura? O autor parece sugerir que deveríamos encontrar maneiras de contemplar todas as culturas. Mas como garantir esse multiculturalismo sem privilegiar uma ou outra e excluir outras? Essa situação é ainda mais intangível em uma sociedade mestiça como a nossa. Que cultura representa alguém com um avô africano, uma avó índigena, outro avô europeu e outra avó asiática? E o filho desta com um mulato? Não seria portanto o “miscigenismo” o equivalente cultural ao secularismo? Isso não seria negar a existência de diversas culturas e sim assumir uma posição crítica com todas, enfatizando o caráter miscigenado do ser humano.

  3. Guto 18/12/2013 às 11:46 #

    texto muito bom

  4. Guto 18/12/2013 às 11:47 #

    ‘ Mas esses genes não parecem distribuir-se de maneira desigual em um povo ou outro. ‘ – E os malditos asiáticos? hahahaha
    Brincadeiras a parte, tenho que dizer que esse texto é muito foda. Nego põe a culpa de tudo no racismo. Por questões culturais e malditas heranças coloniais ( ouvir ‘Roots bloody roots’ ), temos muitos negros condicionados a péssimos níveis sociais, mas repito : POR HERANÇAS COLONIAIS. Talvez o racismo entre nessa história lá no comecinho dela, no ano de 1500, onde ( também por questões étnicas ) os malditos europeus escravizaram os negros. De lá pra cá tudo veio a ser consequência disso. As cotas raciais, medida super sem noção pra poder ‘equiparar’ as etnias, mas peraê, se somos iguais e temos a mesma capacidade intelectual NATURAL de aprender, pra que facilitar pra uns? Agora, se falarmos de cotas sociais eu concordo até certo ponto, porque a educação pública é fudida, porém é uma medida remediadora. Enfim, esse assunto tá bem batido aqui, mas comentei porque curti muito o texto.

  5. Eduardo Bernardes 24/12/2013 às 14:32 #

    Olha, não sei em que mundo o Hitchens viveu pra afirmar que o genoma aboliu o racismo, mas vamos lá. Alguns argumentos dele me parecem interessante (no quesito religioso), apesar do seu posicionamento ferrenho, que pouco me agrada. Mas vejo que, pelo menos politicamente, parece que ele sofreu do mesmo mal que o Reinaldo Azevedo, o “ex-Libelu convertido”.

    O discurso é muito bonito, a ideia propagada de “não existem raças, apenas a raça humana” também é bonita de se ouvir, mas a prática é outra: em algumas situações, seres humanos segregam e discriminam outros utilizando como critério a cor da pele, e em alguns casos, este é o único critério utilizado. Pode até não existir o conceito de raça, mas este é amplamente utilizado como critério discriminatório e excludente. O engraçado é que quando tal conceito é utilizado pra discriminar e excluir, na há um só questionamento. Agora, só porque este conceito passa a ser utilizado para benefício (ou porque não dizer, indenização histórica) de um determinado segmento historicamente prejudicado, aí surgem as reclamações.

    A foto mostrando médicos e garis na Bahia (de onde Salvador é carinhosamente chamada de Johanesburgo brasileira, por questões óbvias) é fruto de tanto de uma discriminação racial quanto social (simbióticas). E querer combater apenas uma das causas, é uma forma pouco inteligente de ação.

    Não se pode curar uma dor de cabeça passando pomada analgésica no dedão do pé. Racismo não se combate apenas com equiparação econômica, pois esta é uma parte do processo. Se a questão pode ser resolvida somente pelo viés social, aí é que a coisa não engrena mesmo, e por questões muito simples: 1) houve (ou haverá), durante toda a história de vigência do capitalismo, algum caso de justiça/equiparação social (ou coisa parecida) entre as classes? 2) Houve algum momento nesta história em que não houve exploração/discriminação? 3) É possível, num sistema capitalista, a aproximação econômica entre as classes? 4) Uma simples isonomia (ou algo parecido) no campo econômico é possível neste contexto, para que tais problemas de discriminação sejam resolvidos? E se sim, o que falta pra ser sanado este problema? E se este problema tem uma solução tangível e concreta, por que raios não foi utilizada até hoje? A discussão de apenas um aspecto (no caso, o econômico) tira, e muito, o foco do problema, fazendo com que o mesmo se perpetue.

    Ainda estamos esperando aquela catastrófica profecia do Arnaldo Jabor e difundida por algumas pessoas do DEM: a guerra racial decorrente das políticas de ação afirmativa, o que ainda não ocorreu. Não falo aqui do racismo proveniente das mazelas sociais, mas sim, daquele outro tipo de racismo que nem a distribuição de renda pode resolver. Aquele conceito de raça que só aparece no momento do “baculejo” do policial, ou em algumas seleções de RH. Sempre escuto essa conversa de: “Deixa isso pra lá. Não existe raça branca, preta, amarela. O que existe é raça humana.” Mas basta um negro subir um pouco na escala social que a pancadaria começa. E esclarecendo, Obama, Pelé e etc. são casos excepcionais, diga-se de passagem. Pode ter certeza que o Obama também sofre discriminação por ser negro, mesmo sendo presidente dos EUA e por mais grana que possa ter.

    Acredito que nem todas as pessoas que se manifestam contra políticas de ação afirmativa sejam racistas. Mas certamente, todo racista é contra este tipo de política e, logicamente, fazem parte daqueles perfis anônimos que vemos por aí, protestando arbitrariamente. Por isso, a não discussão do tema serve apenas pra se manter a situação como está. Os últimos anos mostraram bem como é meter o dedo em feridas históricas, vide PEC das domésticas, cotas raciais e o Programa Mais Médicos.

    A galera do “vejo racismo em tudo” é tão perigosa quanto aquela do “somos uma nação miscigenada, portanto, não há racismo!”. Obviamente não existe racismo por todos os lados. Mas uma visão “everywhere” nos tira a atenção para o fato de que o problema existe, é muito mais amplo e precisa ser resolvido.

    • André Luzardo 24/12/2013 às 14:57 #

      Valeu pelo comentário Eduardo!

      O que o Hitchens quer dizer é que a ciência moderna aboliu o conceito de racismo, aquela ideia de que era possível classificar humanos em grupos geneticamente distintos. Pro Hitchens, e pra mim também, quem é racista hoje em dia é o ignorante que ainda não sabe ou não entendeu isso. Esses existem aos montes, assim como existem criacionistas aos montes. E talvez sempre existirão. Qualquer diferença física ou cultural vai eliciar o nosso instinto tribal. Mesmo com toda educação do mundo, o instinto vai ser acionado. A diferença é que uma pessoa cientificamente educada vai ter pelo menos boas condições de lidar com isso racionalmente.

      Concordo contigo que historicamente o uso do conceito de raça para excluir foi pouco criticado. Mas acho que usar o conceito de raça para “incluir” só acaba por combater um mau com outro mau. É um pouco como o umbandista ou evangélico que reclama da educação católica em escolas, e como solução propõe implementar também a sua religião. Ou como um judeu que escapa da perseguição de um estado cristão para formar um estado judaico. Pra mim seria muito melhor atacar o racismo através da educação científica de que não existem raças, e acabar com qualquer sanção estatal a esse conceito.

      Tu diz que a questão econômica está relacionada com o racismo, mas eu acho que ela é apenas acidental. O cara que é racista vai usar qualquer desculpa pra justificar o racismo dele. Hoje em dia o racista tende a achar que negro é pobre pq é negro. Mas se o negro fosse mais rico que ele, ele diria que o negro só é rico pq é um ganancioso pão duro, como muitos cristãos achavam (e até hoje acham) dos judeus. É a mesma coisa seja entre brigas de religiosos, de cores ou de torcidas de futebol. O que não podemos fazer é entrar nessa bobagem.

      Falando apenas da situação econômica do negro: ela sem dúvida tem origem no racismo, o absurdo da escravidão deu origem a essa desigualdade. Mas depois disso, o Brasil até hoje não criou nenhum mecanismo (fora o bolsa família) para acabar com a pobreza, e pobreza a gente sabe que se perpetua de geração a geração. Onde está o auxílio moradia pra quem não consegue pagar o financiamento da casa? Onde está o auxílio financeiro para a família que não consegue pagar livros pros filhos? Onde estão as bolsas generosas para o ensino superior? Onde está o imposto de renda justo, aquele que é alto para o rico e baixo pro pobre? Façamos essas reformas e eu quero ver se a universidade não vai ter mais moreno que branco.

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