O museu geológico da Bahia responde

3 jan

cristaloterapia

Faz alguns meses escrevi um relato da minha visita ao Museu Geológico da Bahia, mais especificamente sobre a sala “a energia dos cristais”. Trata-se de uma exposição dos supostos poderes mágicos dos cristais, da maneira como a pseudociência da cristaloterapia os entende. A existência desta sala em um museu dedicado a ciência da geologia é, no mínimo, questionável. Em nenhum lugar havia qualquer crítica ou menção da total ausência de evidências sobre as alegações de supostas energias místicas e curas pelos cristais, ao contrário, quase tudo era explicado como se fosse verdade. No meu post anterior tentei deixar claro o caráter irresponsável de tal atitude. Logo após minha visita, enviei essas observações por email para o coordenador do museu, Heli de Almeida Sampaio Filho, que informou-me cordialmente que iria responder quando tivesse tempo.

Isso foi há três meses atrás. Faz alguns dias recebi sua resposta, ao que fico muito grato, mas infelizmente seu conteúdo ficou muito aquém das minhas expectativas. Antes de comentar, quero dizer que considero esse debate de fundamental importância para a educação científica brasileira, principalmente no contexto do nosso péssimo resultado no Pisa. Como salienta o professor da UFBA e secretário regional da SBPC/BA Nelson Pretto, e que eu concordo plenamente:

Precisamos de uma política de implantação massiva e universal de museus, planetários, hackers labsfab labs, espaços coletivos associados com a escola, onde a meninada possa criar e claro, tudo isso fortemente articulado com a cultura, pois como já dizia João Zanetic, professor de Física da USP, em sua tese de doutorado, “Física também é cultura”, afirma.

Essa sala do museu de geologia poderia ser a oportunidade perfeita para fazer esta articulação entre cultura e método científico. Mais adiante terei mais a dizer sobre isso. Vejamos primeiro a resposta do coordenador do museu:

A sala Energia dos Cristais trata apenas do uso milenar dos cristais pela humanidade. Acreditamos que uma instituição museológica pode e deve difundir os conhecimentos para a população como um todo, ou seja, para todos os componentes de uma sociedade pluralista. Foi exatamente dentro desse viés que buscamos atender a demanda de muitos visitantes que nos procuraram para abrir um espaço destinado a Energia dos Cristais.

No particular, a Bahia é um Estado que aglutinou influências culturais diversificadas e que associa símbolos e referências múltiplas que caracterizam o seu povo. Não se pretende, de forma alguma, informar ao público que visita a sala Energia dos Cristais que as informações ali expostas são de caráter científico. A abordagem remete ao uso diversificado dos cristais pelos povos antigos. As transcrições expostas, são meras referências históricas, da cultura popular dos povos oriundos.

O painel com as questões:  os cristais emanam energia? exercem efeitos terapêuticos no homem?  amuletos, protegem e dão sorte? são simples provocações, para que o cidadão, ele próprio, reflita, pesquise, e tire suas próprias conclusões. Convidar as pessoas a pensarem, é, também, papel do Museu e ficamos felizes quando pessoas como Você, apresentam questões e mostram-se abertas a um diálogo esclarecedor.

Esperamos ter respondido às suas questões e solicitamos que nos avise, quando for retornar ao Museu, para que possamos conversar pessoalmente e trocarmos conhecimentos.

Gostaria novamente de agradecer ao Heli por manter aberta a comunicação. Entendo e compartilho do objetivo que ele tem de descrever o entendimento que é feito dos cristais pela sociedade como um todo. Porém ao divulgar apenas o uso e entendimento que a cristaloterapia faz dos cristais, o museu não está cumprindo com esse objetivo. A exposição não deixa claro que as afirmações ali feitas são o entendimento único e exclusivo da cristaloterapia, uma pseudociência que mescla folclore e mito com práticas terapêuticas sem nenhuma comprovação científica. Heli afirma que “não se pretende, de forma alguma, informar ao público que visita a sala Energia dos Cristais que as informações ali expostas são de caráter científico”, o que é positivo, mas então por que não podemos encontrar essa ressalva em lugar algum na sala? Isso pode ser óbvio para um geólogo, mas claramente não é para um leigo ou para uma criança, que visitam um museu em busca de conhecimento científico. Frases como “ter uma turmalina é possuir uma pedra com fortes poderes terapêuticos de procedência mística” ou “esta pedra permite penetrar profundamente nos pensamentos mais íntimos das pessoas” não soam como “simples provocações” e nem deixam margem para que o cidadão “reflita, pesquise e tire suas próprias conclusões”.

Cabe aqui ressaltar o erro em acreditar que um museu dedicado ao conhecimento científico possa disseminar a informação de uma maneira cientificamente neutra. Qualquer informação difundida por tal veículo será inevitavelmente interpretada como sendo a opinião científica. Portanto todo cuidado é pouco na hora de escolher como abordar certos tópicos.

Porém mesmo que se reformulasse a exposição de modo a deixar perfeitamente claro para todos que ela mostra apenas a versão da cristaloterapia, o que se ganharia com isso em termos de popularização da ciência e alfabetismo científico? Estaríamos apenas criando mais uma plataforma para disseminar pseudociência, como se já não bastasse todo o espaço que essa encontra na mídia. Se a exposição ficasse só nisso, estaríamos perdendo uma ótima oportunidade para a popularização da ciência e desenvolvimento do pensamento crítico.

Existe porém uma maneira simples de atingir esse objetivo, e que gostaria de sugerir ao Heli e ao museu. Usar esses mitos e folclores envolvendo os cristais como gancho para explicar ciência de verdade e pensamento crítico. Por exemplo, a crença em uma “energia” mística dos cristais poderia ser o gancho para explicar o conceito científico de energia. Ou ainda para explicar o funcionamento de um relógio de quartzo ou o efeito piezelétrico. Os supostos efeitos terapêuticos poderiam ser a deixa para explicar o método científico, que tipo de design experimental seria o mais adequado para testar tais efeitos, o poder do efeito placebo, etc.

Veja o exemplo deste site, que ajuda qualquer pessoa a criar um design experimental para testar centificamente qualquer coisa. Dentre as questões sendo testadas nesse momento estão “comer queijo dá pesadelos?” e “os meus tênis novos me fazem correr mais rápido?”. Agora imagine o quão melhor não seria para a educação científica da Bahia se os visitantes do museu saíssem pensando sobre designs experimentais para testar coisas como “segurar um cristal de calcita ajuda a melhorar a concentração?” ou “esfregar turmalina na pele pode aliviar a tensão?”

Enfim, espero que essas críticas e sugestões inspirem o Heli e o resto da equipe do museu a repensar sobre o impacto negativo que essa sala atualmente exerce no desenvolvimento do pensamento científico. Com o resultado abismal do Brasil no Pisa e o atraso que isso acarreta ao país, não dá pra perder nenhuma oportunidade de melhorar nossa educação científica.

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6 Respostas to “O museu geológico da Bahia responde”

  1. octaviobotelho 08/01/2014 às 18:09 #

    Parabéns André, bom comentário. Não sabia sobre o caso deste Museu Geológico da Bahia. Agora, imagine se esta moda pega e os museus de História Natural, pelo mundo afora, decidissem criar uma ala com a versão criacionista desde Adão e Eva da História Natural! Parece que já passou da hora de se criar uma frente de combate à pseudociência.

    • André Luzardo 08/01/2014 às 18:32 #

      Obrigado Octavio! Cheguei a conversar sobre isso pelo twitter com o secretário regional da SBPC Bahia, Nelson Pretto, e ele concorda com o que escrevi no post. Mas ficou só nisso. Espero que mais gente se mobilize, pois se os próprios cientistas não combaterem ativamente a pseudociência, quem o fará?

      • octaviobotelho 08/01/2014 às 19:28 #

        Primeiro é preciso saber a que órgão pertence este museu, se é da Secretaria da Cultura, ou da Educação, ou do Turismo, ou do Ministério de Minas e Energia, etc. Bem como, se é de uma Secretaria Estadual, Municipal ou de algum Ministério. Para então saber quem é o responsável e, a partir daí, pedir esclarecimentos públicos sobre este assunto, sobretudo mobilizar a imprensa.
        Pois, tal como você descreveu, o visitante sairá daquele museu pensando que Geologia não é Ciência.
        Agora, quanto à frente de combate à pseudociência, trata-se de uma iniciativa difícil, sobretudo no Brasil, uma vez que nossas escolas estão infestadas de professores carolas. Mesmo assim, vale a pena começar a discutir sobre esta possibilidade.

      • André Luzardo 08/01/2014 às 19:39 #

        Eu conversei com o coordenador do museu, que parece ser o responsável. Agora teria que ver se há um coordenador do coordenador, como você falou. Para mim fica difícil ir muito além disso pois moro bem longe de Salvador, mas sigo tentando divulgar o ocorrido o máximo possível, na esperança que mais gente se mobilize.

  2. Rubens Antonio 25/03/2014 às 19:40 #

    Bem. Aquela sala encontra-se como está, tendo sido elaborada por uma pessoa relacionada à crença na citada “Energia dos Cristais”… Ao longo do tempo, optou-se por respeitar o que ali se encontra.
    A resposta dos que a visitam é clara. Os que acreditam, entram ali e apreciam o ambiente.
    Os que não acreditam, vêem-no como curiosidade.
    Inclua-se nisto mesmo fundamentalistas religiosos das mais variadas vertentes.
    Ou seja… Sinceramente? “Impacto negativo” nenhum.
    Nem se convence, nem se desconvence, através daquela sala.
    O restante do Museu responde, muito claramente, quaisquer demandas em relação ao que se entende como linha científica ou pensamento científico.
    Quanto a um “museu de História Natural” colocar uma “ala” com Adão e Eva, não vejo qualquer problema. Dependerá de quem edifique e/ou mantenha tal Museu.
    Apesar de a palavra “Museu” haver sido “legalmente” sequestrada, para casos específicos, ela é mais vasta do que o que muitos propõem.
    A mim é indiferente se um Museu fundamentado em Ciência coloca uma sala com a visão criacionista. Isto desde que a visão científica esteja marcada MUITO claramente, em todo o espaço, conduzindo as pessoas ao que propomos ser a visão correta.
    Entendo ser oportuno a um Museu expor visões. Ainda que conflitantes com a Ciência.
    Claro que entendo se oportuna a percepção que Vc, André, coloca. Porém, um Museu é, a meu juízo, MUITO mais abrangente que o espectro científico.
    .
    Entendo, contudo, que uma distinção bem mais clara DEVE surgir. E, se expomos propostas conflitantes à Ciência, realmente, a resposta da Ciência deve estar muito clara.
    Conversarei com o Heli quanto a isso.
    Se quiser, Vc e eu podemos ir conversando tb sobre isto.

    • André Luzardo 05/04/2014 às 06:52 #

      Rubens, acabei de ler sobre uma pesquisa publicada no Frontiers of Psychology onde os autores exploram maneiras de combater o pensamento pseudocientífico. Eles sugerem, assim como eu, incluir exemplos de pseudociência em classes de ciência, para mostrar como refutá-los adequadamente. Na minha opinião, é exatamente isso que o museu deveria fazer com relação a esses mitos dos cristais. Mas os autores ainda alertam: é preciso ter cuidado pois a simples menção de mitos, mesmo com a intenção de refutá-los, pode na verdade propagá-los. Vale a pena ler: http://www.forbes.com/sites/rosspomeroy/2014/04/04/time-to-bring-pseudoscience-into-science-class/

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