O Efeito Placebo e as Terapias Alternativas

7 abr

A medicina alternativa é um grande negócio, e como não é regularizada devidamente, estatisticamente é difícil de se chegar a qualquer número. Somente no mercado do Reino Unido acredita-se que movimente por volta de $ 340 milhões, visto 1 em 5 adultos serem consumidores. Além disso, alguns tratamentos (particularmente a homeopatia) são disponibilizados pelo serviço de saúde nacional. Em todo o mundo, de acordo com uma estimativa de 2008, seu valor de mercado chega a $ 60 bilhões.

Ao longo dos anos, Dr. Edzard Ernst, o primeiro catedrático em medicina complementar no mundo, e seu grupo realizaram vários testes clínicos confiáveis, publicando mais de 160 meta análises (meta análises são técnicas estatísticas para a extração da informação provinda de vários pequenos testes clínicos que não são, por si, estatisticamente confiáveis). E seus achados são sombrios (porém fortes). De acordo com seu livro “O Guia para as Medicinas Complementares e Alternativas”, por volta de 95% dos tratamentos examinados – em vários campos, tais como acupuntura, medicina herbal, homeopatia e reflexologia – são estatisticamente indistingüíveis dos tratamentos placebos. Somente em 5% dos casos havia um claro benefício além daquele visto no placebo, no máximo uma tendência de efeito que sugeriria uma pesquisa mais aprofundada.

E foi, por muito tempo, uma experiência solitária. O financiamento era difícil de conseguir, já que muitas investigações, como para a medicina ayurvédica, foi considerada uma perda de tempo. Além disso, os praticantes das medicinas alternativas se tornaram cada vez mais relutantes em cooperar à medida que os resultados negativos surgiam.

Porém o Dr. Ernst acredita que seu trabalho ajudou a desembaraçar um sério problema de saúde. Ele aponta que as medicinas convencionais devem ser seguras e eficazes, passando por testes e análises positivos antes mesmo de estarem disponíveis para a venda. E isso é raramente feito para os tratamentos alternativos, os quais se baseiam numa mistura de apelos à tradição e aos poderes “naturais” de seus produtos para convencer os consumidores. Isso explica porque, por instância, alguns homeopatas podem comercializar tratamentos para a malária, apesar da total falta de evidências que sugiram que esse tratamento de fato funcione, ou porque alguns quiropratas juram curar a infertilidade.

Apesar da falta de evidências, e apesar da possibilidade de que alguns praticantes da medicina alternativa possam lesar seus pacientes (tanto diretamente, como convencendo-os a abandonar tratamentos convencionais em prol de seus ungüentos), Dr. Ernst também acredita que os médicos convencionais podem aprender com o quiropratas, homeopatas e mestres ascendentes. E esses podem ensinar o verdadeiro valor terapêutico do efeito placebo, um dos fenômenos mais estranhos e escorregadios da medicina.


Mente e Corpo

O placebo é um tratamento médico falso (sham) –uma pílula de açúcar sem nenhum composto ativo (inerte) ou uma cirurgia falsa. Seu maior uso cientíico no momento é nos testes clínicos como linha de base para compará-lo a outro tratamento. Mas só porque o tratamento não é real não significa que não funciona. E é exatamente por isso que é utilizado em testes: os pesquisadores sabem há anos que comparar pacientes tratados com outros que não receberam nenhum tipo de tratamento resulta em dados não precisos.

Por exemplo, analgésicos falsos podem reduzir a dor de um paciente. Um estudo de 2002 mostra que uma cirurgia falsa para a artrite (simulação de cirurgia artroscópica) no joelho tem efeitos benéficos similares àqueles da cirurgia real. E os efeitos podem ser tão maléficos como benéficos. Pacientes que tomam opiódes falsos (para dor crônica ou pós-cirúrgica), pensando serem verdadeiros, podem experimentar um efeito de respiração curta e superficial, um efeito colateral da droga real.

Além de serem polêmicos, os placebos são uma pesquisa por si só. Em 16 de maio de 2011, a Royal Society, do Reino Unido, a academia científica mais antiga do mundo, publicou um volume sobre o placebo no Philosophical Transactions.

E uma conclusão surgiu da pesquisa. O efeito placebo é mais forte para aqueles distúrbios que são predominantemente mentais e subjetivos. Uma conclusão cimentada por meta análises de estudos placebos foi feita em 2010 por um grupo de pesquisadores da Cochrane Collaboration, uma organização que faz revisões de evidências para os tratamentos médicos. No caso da depressão, se pacientes receberem pílulas placebos, podemos encontrar quase o mesmo efeito quando tratados com os antidepressivos de última geração.

A dor é outro sintoma relacionado à mente, suscetível ao tratamento por placebo. Aqui, as expectativas do paciente influenciam na potência do efeito. Dizer ao paciente que irá receber morfina dá um alívio à dor muito maior que se for dito que receberá aspirinas – mesmo quando ambas pílulas contêm nada mais que açúcar. Estudos de neuro-imagem mostram que essa expectativa estimula a produção de analgésicos naturais no encéfalo. Um artigo do Philosophical Transactions, feito por Karin Meissner, conclui que os tratamentos placebos também podem afetar o sistema nervoso autônomo, o qual controla as funções inconscientes, tais como os batimentos cardíacos, pressão arteria, digestão e por aí vai. O drama em torno do paciente em si é importante também. Injeções placebos são mais efetivas que pílulas placebos, e nenhum tratamento placebo é mais potente que uma cirurgia falsa. E quanto mais positivo for o médico em relação ao tratamento (placebo), maior a tendência do paciente se sentir melhor.

Apesar do poder do placebo, muitos médicos convencionais não os prescrevem, pois acredita-se que o paciente posssa piorar (por não receber o tratamento correto), podendo inverter o resultado. Porém, talvez, o resultado mais fascinante da pesquisa com placebos é – mais recentemente examinada por Ted Kaptchuk, no contexto da síndromoe do cólon irritável – nesse caso, os efeitos placebos persistem mesmo se os pacientes souberem que estão recebendo tratamentos placebos (!!!).

Mas, ao invés de suas contrapartes convencionais, os praticantes de medicinas alternativas muitas vezes excedem os efeitos nocivos dos placebos. Eles oferecem consultas longas e relaxantes aos seus consumidores (do tipo “bons modos no divã”, que pode ter um efeito placebo potente). Além disso, esses terapêutas acreditam piamente em seus tratamentos, os quais são muitas vezes feitos sob uma grande e confiante cerimônia. Isso sozinho pode ser o suficiente pra fazer o bem, mesmo através de magnetos, cristais e soluções ultra-diluídas dados aos pacientes que são, por si só, completamente inúteis.

Fonte: The Economist

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