Cura do HIV

25 jul

Pesquisa faz levantamento de dados e encontra dois casos de transplante de medula óssea em que o procedimento pode ter contribuído para reduzir a taxa de vírus circulante de HIV em dois pacientes comprovadamente infectados

Esse seria um título justo para a matéria da Folha de São Paulo, na qual cita: Terapia contra câncer deixa duas pessoas infectadas sem HIV. A diferença clara entre os dois é que a táctica jornalística para chamar a atenção do leitor distorce totalmente a informação real. Não é, como muitos acham, apenas uma licença poética para dizer uma novidade cientifica pretensamente chata.

Vamos analisar o que diz o Jornal Folha de São Paulo, trecho ” ficaram aparentemente livres do vírus”. Agora imagine um Oncologista dizendo para o Paciente com câncer no Cérebro : “aparetemente você não tem mais células cancerosas no Cérebro logo você está livre do câncer”. Soaria bem estranho para qualquer um. Por isso que na ciência é importante comparar e buscar as informações da fonte original.

Vamos esclarecer as diferenças. O nome “cura” foi consagradamente conhecido por “estar livre de algum patógeno”, seja ele vírus bactéria ou verme. Neste caso, curar do HIV seria erradicar completamente este do corpo. Sabemos que isso é improvável no momento já que o HIV é um retrovírus, ou seja, integra seu material genético na célula hospedeira. Além disso existe uma diversidade de esconderijos que este pode se alojar. Sem se manifestar, sem chamar atenção, apenas esperando o momento mais oportuno (assim como os vírus do Herpes faz na boca).

Cura funcional por outro lado é o controle do a gente agressor, evitando que o paciente evolua para um quadro mais grave (AIDS). Este modelo de cura  significa que o paciente pode viver com saúde sem ajuda dos medicamentos que controlem o agente agressor. Sharon Lewin and Melissa Churchill explicam que a definição mais adequada seria: menos de 50 copias do material genético do vírus (RNA) por ml e longo período de saúde sem a necessidade de uso de drogas (HAART).

O editorial na Nature sobre esse estudo diz que eles continuam em tratamento “por precaução”. Mas então pode-se considerar este caso reportado como cura? .Uma pessoa em tratamento quimioterápico pode ser considerada curada mesmo se estiver em tratamento ? Qual é exatamente o parâmetro que deveríamos usar  para definir cura, já que nem os pesquisadores conseguem dizer se a pessoa está curada ( simplesmente não temos tecnologia para isso ).

Além disso, somente um paciente que realizou tratamento similar (Berlin patient) continua com viremia indetectável mesmo sem uso de drogas. Não sabemos quando e se o vírus vai retornar a circular no corpo deste paciente. No artigo original o autor cita que um parte dos vírus circulante antes do transplante tinha uma mutação (X4). Estes tem a capacidade de invadir células originarias do transplante, ou seja, existe um potencial de vírus emergirem desses sítios reservatórios e invadir as células de defesa do corpo novamente.

Duvido que algum pesquisador sério falaria em cura em um tratamento em que nenhum paciente se curou com certeza. Então devemos adotar a hipótese nula neste caso, ser cético quando diversos jornais se apóiam em tão poucos dados e um press release. Sinceramente não acredito que nenhum procedimento médico deve ser levado a sério apenas com dados retrospectivos. Não sabemos por exemplo se transplantes similares geraram mais mortes se comparado ao tradicional (sem mutação) em pacientes com HIV. Até porque o o estudo de caso tem é apenas um alerta . Vide a pirâmide de evidências:

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A qualidade de reportagens cientificas de grandes mídias no Brasil é ainda muito ruim. Precisamos evoluir muito neste campo, além de ter pouco espaço dedicado para informação/educação de ciências na TV e Jornais. Por exemplo, já reclamei com a Folha de São Paulo sobre não colocar as referências de forma correta, parece que para eles a fonte de informação não é muito importante:

Reclamação

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Resposta da Folha

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