Onde estão as premissas injustificadas da ciência?

18 set

Um amigo me sugeriu comentar o texto As Premissas Injustificadas da Ciência de autoria de Eduardo Pinheiro. O texto é longo, o autor toca em muitos pontos e parece ativamente evitar tomar uma posição clara sobre qualquer um deles. Pelo que pude entender, o texto é uma tentativa de criticar a ciência, de demonstrar que existem tanto viéses intrínsecos quanto paradigmas filosóficos que impedem os cientistas de descobrir a verdade. Acho que pude identificar dois argumentos básicos que sustentam toda essa crítica: parece basicamente um mix de argumentos pós-modernos (a verdade não existe, os cientistas a constroem com base em seus preconceitos) com misticismo espírita (dualidade alma-corpo ou imaterialismo).

Como exemplo do pensamento pós-moderno expresso no texto considere esse trecho:

Parece haver uma construção de consenso em torno das necessidades de pesquisa e, portanto, da maioria de seus resultados. As pesquisas sobre o efeito adverso do tabaco existem desde o fim dos anos 50, ainda assim a indústria do tabaco conseguiu sustentar confusão científica até pelo menos o fim dos anos 70. Com bastante dinheiro, se contrata pesquisadores e especialistas que fazem pesquisas em número maior e publicadas em revistas de maior prestígio, que tendam aos resultados que são financeiramente mais interessantes.

O alarmante é que isso é feito dentro do escopo de boa ciência, isto é, a distorção é a mera exploração de nichos de pesquisa que resultam favoráveis — não em pesquisa deliberadamente, dentro do seu desenho interno, mal feita ou falsificada. Simplesmente se dá mais dinheiro para aqueles pesquisadores que estão seguindo linhas que tendem a dar resultados mais favoráveis e, de forma geral, se fomenta o prestígio de publicações simpáticas a esses interesses.

É o determinismo econômico suplantando a objetividade.

O autor tem razão que o dinheiro determina bastante quais linhas de pesquisa serão estimuladas e que a indústria (não só a do tabaco) tenta muitas vezes influenciar os resultados científicos. Ele erra contudo quando diz que tudo isso é feito dentro do escopo da boa ciência. Não é. Nem todo o dinheiro do mundo poderia influenciar por si só o resultado de uma RCT (randomized controlled trial ou ensaio randomizado controlado em português). Para que isso acontecesse seria necessário cometer erros metodológicos ou falsificar diretamente os dados. E todo o treino do cientista é voltado para reconhecer e corrigir esses erros. Um exemplo é a indústria farmacêutica de hoje, que faz o que a do tabaco fazia ontem, mas mesmo assim nós cientistas estamos de olho, sabemos o que eles estão aprontando e já temos soluções. Só que agora entramos em questões políticas: quem vai financiar a pesquisa e produção de medicamentos senão a indústria? O governo? Nesse caso, que medicamentos o governo deveria priorizar?

E não é só o dinheiro que influencia os resultados científicos, as próprias convicções políticas e religiosas do cientista também podem produzir um viés. Estudos já foram manipulados por ativistas anti-GMO para produzir resultados negativos quanto aos alimentos transgênicos. Estudos feitos por pesquisadores espíritas distorcem as evidências para tentar concluir que médiuns realmente encarnam espíritos. Mas é preciso salientar que esses são erros, ou seja, ciência mal feita, e que quase sempre esses erros são identificados por outros cientistas e criticados adequadamente.

Parte essencial do trabalho do cientista, e do cético, é identificar e corrigir todo e qualquer viés que possa estar distorcendo a interpretação dos dados e a realidade. Já sabíamos por exemplo do viés da publicação, que acontece porque os periódicos científicos raramente aceitam publicar resultados nulos ou negativos, mas recentemente ficamos sabendo o grau desse viés nas ciências sociais. Existem muitos outros exemplos de viéses mas o importante é entender que eles não são uma limitação do método científico em si e sim limitações cognitivas humanas que podem e são corrigidas pelos próprios cientistas. O problema é que a eficácia das correções propostas muitas vezes dependem de decisões políticas, que por sua vez dependem de um governo, e em última instância de um povo, bem versado em questões científicas.

Quem deseja entender melhor o movimento pós-moderno e as críticas ao mesmo deve ler o excelente Imposturas Intelectuais de Sokal e Bricmont.

Passemos a parte místico-espírita do texto. Veja essa parte:

Mas, como no caso do realismo, ir além do fisicalismo pode ajudar a ciência. Se não nos comprometemos com uma visão fisicalista da mente, por exemplo, todo um aspecto extremamente relevante para nossa vida, nossa experiência direta de primeira pessoa, não é reduzida a simples causalidades materiais, dentro de um cérebro operando causalidades físico-químicas.

[…]

Correlação não é causação, qualquer nerd nos informa (e alguns nos informam que correlação não é nem mesmo correlação). No entanto, no mais das vezes, quando declaramos uma morte clínica, por exemplo, assumimos causação. Bom, na falta de algo melhor, até tudo bem.

Desde que não nos enganemos: não há evidência maior do que a de mera correlação.

O resto, para qualquer lado, é especulação metafísica. Sim, acreditar que a mente se reduz ao cérebro é especulação metafísica sem justificação, ao menos tanto quanto o oposto, isto é, que a mente esteja fora do cérebro (como outra substância, no caso do dualismo, que embora impopular, nunca foi também refutado, ou até em outras mentes/cérebros, como no caso do externismo — ou, a minha preferida, a opção de certo tipo de idealismo de que o cérebro, juntamente com todos os demais fenômenos, é que seriam “epifenômeno da mente”).

Aqui o autor reproduz mais ou menos o argumento espiritualista e dualista contra o materialismo. Ele identifica corretamente que o materialismo é uma hipótese, que até pode ser considerada metafísica, mas erra ao dar a entender que cientistas se apegam ao materialismo como se fosse um dogma que limita ou impede o desenvolvimento pleno da ciência. Não fazemos isso. O materiaismo não é uma premissa e sim uma conclusão baseada em dados. Meu trabalho por exemplo envolve simular computacionalmente processos neurais e comportamentais. Tanto eu quanto meus colegas estamos completamente abertos a qualquer abordagem que nos permita entender o cérebro e o comportamento. O problema é que quando olhamos para os resultados de mais de um século de investigação neurocientífica nenhuma outra hipótese além do materialismo parece razoável. Se você acha que não são os neurônios e suas propriedades físico-químicas que determinam a nossa vida mental então o ônus está com você em mostrar que sua hipótese “imaterialista” explica esses mesmos resultados e ainda aponta para novos. Não vou me estender muito mais sobre essa questão (aliás já tratei dela antes); é suficiente dizer que ela sempre surge em círculos espíritas ou místico-quânticos e que um bom livro-texto de neurociência é o melhor antídoto.

Em conclusão, tanto o pós-modernismo quanto o anti-materialismo já foram desbancados várias vezes tanto por céticos quanto cientistas. O autor aponta outras supostas premissas injustificadas da ciência, questões filosóficas que possuem certo mérito como o problema da indução de Hume e que um bom curso de filosofia da ciência cobriria melhor do que qualquer post que eu possa escrever. Minha contribuição talvez esteja em salientar que cientistas não tendem a aderir a linhas filosóficas com a mesma convicção e comprometimento que os próprios filósofos. Cientistas são mais promíscuos filosoficamente. Eles tendem a adotar qualquer visão filosófica que produza resultados científicos confiáveis. As equações da mecânica quântica implicam em um universo cheio de paradoxos e quase ininteligível? Adotemos então uma postura filosófica mais instrumentalista já que as equações funcionam e muito bem. Se amanhã alguém descobrir outra teoria que resolva os paradoxos de maneira inteligível preservando e ampliando o nosso conhecimento, ótimo, abandonamos o instrumentalismo e abraçamos o novo paradigma que tome o seu lugar. É assim que pensam a maioria dos cientistas.

Nota: Eduardo Pinheiro entrou em contato pelos comentários demonstrando grande insatisfação com a minha crítica já que ele não se considera nem pós-moderno nem dualista. Não foi minha intenção atribuir rótulos ao autor, nem acho que o texto fez isso, apenas quis mostrar que os argumentos que ele usa são os mesmos usados por essas duas correntes.

Anúncios

12 Respostas to “Onde estão as premissas injustificadas da ciência?”

  1. Eduardo Pinheiro 18/09/2014 às 15:33 #

    Como autor do texto criticado, vou apenas rebater os erros diretos quanto a ele e vieses sobre minha pessoa. O conteúdo do texto e as alternativas de discussão pode ser discutido naquela área de comentários.

    Como autor do texto eu gostaria de deixar claro que não defendo o dualismo (no texto ou em qualquer outro lugar), e muito menos sou espírita — aliás, tenho ativo asco com relação ao espiritismo. Além disso escrevi contra o misticismo quantico em texto linkado neste próprio artigo, ativamente sendo contra este.

    Quando digo que a ciência e determinada economicamente, isso quer dizer em termos de o que estudar, e em parte em como estudar. Quando digo que isso é feito como boa ciência, é justamente em vista do tema e viés ser determinado pelo dinheiro, enquanto a pesquisa em si é realizada de acordo com métodos estabelecidos, e sem distorção.

    Meu texto ataca o cientismo, não a ciência.

    Você menciona o viés materialista e dá um exemplo da neurociência. Pois eu menciono então, em contraprova de que esses vieses não só estão presentes, como obstaculizam a pesquisa, a tensão entre o instrumentalismo e o realismo na física, desde a década de 30.

    Além disso, me sinto extremamente ofendido de estar propagando pós-modernidade, com relação ao qual faço extensas criticas em outros textos.

    A noção de que a física quantica tenha paradoxos é uma visão realista, no instrumentalismo e outras interpretaçoes, não há paradoxos. Só em afirmar que haja paradoxos na visão quântica já é estabelecer um viés realista.

    Então 1) dualismo não; 2) espiritismo blerghs x 1000; 3) misticismo quântico não; 4) entendimento do que é o viés econômico que apontei foi incorreto; 5) o foco no cientismo não foi reconhecido; 6) evidência libertação de viés metafísico com avanço da ciência, no caso mecânica quântica (não se consegue em neurociência? ora, quem conseguir leva o Nobel como Niels Bohr levou) 7) pós-modernidade nada, zilch, zero; 8) noção de “paradoxos” na visão quânticos mostram viés realista;

    • André Luzardo 18/09/2014 às 18:45 #

      Eduardo, obrigado pelo comentário mas devo dizer que ele me parece tão confuso quanto o texto original. Não leve a mal mas acho que você não deixa sua posição clara em nenhum tópico. Pode não ter sido sua intenção usar argumentos pós-modernos e dualistas, contudo foi isso que você fez. Você diz que o foco da sua crítica é o “cientismo” mas esse é um termo derrogatório que eu considero ter sido criado com base em uma má compreensão do método científico e da atitude dos cientistas, má compreensão esta que é muito parecida com a posição pós-moderna e foi por isso que preferi focar minha crítica na raíz do mal entendido. Mas se ajudar, permita-me deixar claro minha posição quanto ao termo cientismo. O método científico, que envolve tanto experimentação quanto análise lógico-dedutiva, ainda é a única forma que conhecemos de adquirir conhecimento sobre o cosmos. Se você considera essa afirmação “cientismo” então eu sou um adepto inveterado dessa crença e não vejo mal algum nisso.

      • Eduardo Pinheiro 18/09/2014 às 19:09 #

        Você escreve para um blog onde a palavra “cético” é destacada, mas não parece saber o que significa “suspender o juízo”. Ora, é óbvio que eu não me comprometo com nenhuma visão metafísica, eu so refuto as que são populares, porque elas são bem refutáveis.

        Nenhum de meus argumentos é pós-moderno, e eu só uso o dualismo como outro exemplo, entre tantos. De forma alguma eu defenderia o dualismo.

        O cientismo não é só prerrogativa de alguns (maus) cientistas, mas muito mais do que isso, da população geral. É óbvio que as pessoas afirmam pela ciência coisas que ela não afirma (inclusive cientistas) e esperam dela mais do que ela pode dar (mais os populares). Isso é o cientismo.

        Quando você usa a expressão “aprender sobre o cosmos”, isso implica o realismo, que é justamente um dos vieses que apontei. Dessa forma, sem clareza sobre as premissas metafísicas que você está tirando da cartola, a tendência é se continuar tirando conclusões extras da ciência, que ela não está provendo.

        Eu, como um cético, suspendo o juízo, e portanto, não tomo posição metafísica, e desconfio, de forma sadia, da ciência, de seus resultados e prerrogativas. Mais do que isso, desconfio bastante quando tais resultados e prerrogativas servem, justamente, a tentar justificar premissas metafísicas ou éticas — o que ocorre frequentemente.

        (Se eu fosse fazer um argumento pós-moderno sobre a ciência, eu teria mencionado Feyerabend, mas eu considero esse texto, fora o estilo de uma ou outra ironia no título, porque sou um estilista, dentro das prerrogativas e conclusões da forma mais analítica, e portanto exatamente contra a pós-modernidade).

      • André Luzardo 18/09/2014 às 19:32 #

        Esse blog é dedicado ao ceticismo científico, que é diferente do ceticismo pirrônico clássico que postulava a impossibilidade de qualquer conhecimento. Dentro do ceticismo científico é importante estabelecer níveis de certeza, onde zero seria completamente falso e cem um ideal que apenas é possível na matemática ou lógica. Tendo isso em vista, dizer que o materialismo é tão incerto quanto o dualismo é simplesmente falso ou desonesto. Toda a evidência está do lado do materialismo e nenhuma do lado do dualismo. Logo o materialismo possui um nível de certeza muito maior que o dualismo. Não é 100% e talvez nunca seja, mas é sem dúvida mais certo que o dualismo. Desconfiar de resultados científicos da maneira que você fez, ou seja, sem razão suficiente para tal não é ceticismo, é ceticismo pirrônico ou irracionalismo, posições muito semelhantes ao pós-modernismo.

      • Eduardo Pinheiro 18/09/2014 às 19:48 #

        Eu não estou falando do ceticismo pirrônico, estou falando de “ceticismo” no sentido contemporâneo, técnico. Você está usando uma noção popular de ceticismo quando acredita que ceticismo diz respeito a “não acreditar em duendes e assemelhados”.

        Algumas variedades de ceticismo precludem qualquer conhecimento, mas em geral se é cético com relação a algumas coisas, e não todas. Esse é o meu caso. Algumas coisas considero impossíveis de conhecer, e mesmo que possam porventura ser conhecidas, ainda não são. É o caso de coisas como as premissas do realismo, dualismo, monismo, fisicalismo, materialismo e instrumentalismo. Essas são coisas com relação as quais eu sou cético, no sentido de não saber nem mesmo se é possivel estabelecer algum grau de verdade quanto a elas. Portanto, óbvio, eu não assumo nenhuma dessas premissas no meu texto, embora umas sejam úteis contra a outras (instrumentalismo e realismo, por exemplo).

        O dualismo não está em contraposição ao materialismo. O dualismo está em contraposição com o monismo. O principal problema das doutrinas monistas é que elas em geral acabam implicando algum tipo de dualismo, mesmo que estejam explicitamente afirmando o monismo. É o caso do fisicalismo (o materialismo é um termo menos unívoco aqui para a mesma coisa). Então, como afirmo no texto, o cientista que aceita o realismo (o que demanda, no mínimo um dualismo de propriedade) e o fisicalismo, esta em contradição. Se ele aceita uma e não a outra, daí vamos examinar os vários problemas do monismo, que não são poucos. De fato eu diria que muito provavelmente a noção de “substância” (o monismo diz respeito a substância) é autocontraditória, ou no mínimo um “conceito inerentemente controverso” (um termo técnico em filosofia).

        Com relação a evidências, são circulares. É evidente que uma ciência elaborada em termos de uma premissa metafísica não provada gere resultados em termos dessa premissa — mas não obtennha essa premissa como resultado, o que é bem diferente. E aqui lembro, novamente, o exemplo da briga do instrumentalismo com o realismo, como exemplo desse tipo de tensão. Também eu refuto essa questão das “evidências” do fisicalismo, no meu adendo, que você encontra no texto.

        Não tenho nada de irracionalista, tanto que estou arrazoando. Nada de pós-moderno ou pirrônico, sou um cético no sentido técnico atual do termo, com relação a premissas metafísicas, entre elas, o dualismo, o monismo, o fisicalismo, o materialismo, o instrumentalismo e o realismo. Você confunde a minha postura de suspender o julgamento quanto ao que não tem prova com irracionalismo ou pós-modernidade?

        Ademais, com relação a meu estilo de escrever, eu concordo que é um tanto literário, e exige a interpretação de um leitor consciencioso, que não seja um simplório nas letras. Fora isso, a clareza do que eu estou dizendo pode ser atestada pelo debate que se formou nos comentários do texto original. Se você quiser eu posso fornecer algumas estratégias de como atacar meu texto, uma delas seria tentar prover justificações não circulares para o realismo ou o fisicalismo.

      • André Luzardo 18/09/2014 às 20:05 #

        Estamos dando voltas em círculos aqui. Se você não percebe que toda a evidência neurocientífica está em favor do materialismo e em contra ao dualismo cartesiano, e que isso é razão suficiente para sustentar o materialismo como a melhor explicação atual da mente humana então não vamos ir muito longe nesse debate.

      • Eduardo Pinheiro 18/09/2014 às 20:12 #

        Exatamente porque o seu disco quebrou nisso, que eu propus falar de instrumentalismo vs realismo. Se a sua mente não explode com essa tensão muito real na física do sec XX, você não vai conseguir captar o argumento contra o monismo.

        O dualismo cartesiano nem foi mencionado. Há mais de uma forma de monismo além de fisicalismo, e o monismo em si tem problemas. Há várias formas de dualismo, e há a questão de quando as visões supostamente monistas acabam implicando dualismo, com todos os seus problemas. Se você quer reduzir essa questão a um debate de quinta série sobre “materialismo” e “dualismo cartesiano”, é com você. Eu estou propondo que você entenda os problemas inerentes da metafísica monista (e da dualista), independente de suas formas. Eu refuto isso muito mais embaixo.

        Não conheço ninguém que defenda seriamente dualismo cartesiano hoje em dia. Há umas tentativas de defender o dualismo. Mas o que mais há, e o que é mais interessante, é demonstrar os problemas do monismo.

        As “evidências” não dizem nada sobre as premissas metafísicas. Ora, a pessoa começa com elas e termina com elas, nada ali no meio “prova” uma premissa que já se aceitou de saída. É curioso que eu tenha que explicar o problema inerente da metafísica para um autodeclarado cético!

  2. Luís Santiago 19/09/2014 às 10:23 #

    Olá André Luzardo.
    Achei interessante quando você argumentou que os cientistas são mais “promíscuos” filosoficamente do que os filósofos. Tenho esta mesma impressão, embora não seja nem cientista nem filósofo.

    Uma coisa que eu tinha comentado no texto do Eduardo Pinheiro é que não haveria problema algum em o cientista assumir premissas (até porque ele precisa delas para trabalhar), desde que ele perceba que são apenas premissas, e não de fato uma certeza ou verdade. Por exemplo as premissas do fisicalismo ou da causalidade.

    Entretanto, ao longo da sua argumentação fica claro que você está tomando sim a premissa como uma certeza (ou uma quase-certeza, “99,9%”…) ao ponto de achar absurda qualquer discussão sobre o assunto.

    Seu tom parece ser: como assim você está desafiando o fisicalismo, se já está tão óbvio que o fisicalismo é verdadeiro?

    Mas o fato é que o fisicalismo é realmente uma premissa, uma opinião; não uma certeza. Com relação à neurociência por exemplo, não está nem um pouco claro se a mente é um epifenômeno da matéria. Há evidências da relação entre a atividade cerebral e a atividade mental, mas não há qualquer esboço ainda de como especificamente uma atividade bioquímica específica no cérebro “produz” uma atividade mental específica. Caso isto estivesse claro a tecnologia da Inteligencia Artificial estaria em outro patamar, em que ainda não está.

    Então, por enquanto o fisicalismo ainda é uma premissa e a mente ainda é algo que não compreendemos totalmente.

    Acredito que a motivação do texto original do Eduardo Pinheiro tenha sido deixar claro que estas premissas são opiniões. Observando os comentários daqueles que têm a ciência como profissão, cheguei à conclusão que de fato esta é uma discussão necessária.

    • André Luzardo 19/09/2014 às 10:46 #

      Oi Luís. Eu tentei deixar claro que, ao contrário do que o Eduardo dá a entender no texto dele, cientistas não assumem posições filosóficas de forma dogmática.

      Uma coisa é dizer que todas as evidências suportam o materialismo, o que é verdade, e outra bem diferente é dizer que o materialismo é uma verdade incontestável, o que nenhum cientista faz. Mostre-me qualquer evidência de que a mente se sustenta sem o cérebro (ou um substrato material qualquer, como no caso da inteligência artificial) e eu e meus colegas seremos os primeiros a publicar isso na nature.

      É claro que o materialismo não tem todas as respostas, ainda não alcançamos a inteligência artificial auto-consciente por exemplo, mas os seus competidores não tem nem mesmo um ponto de partida. Se tivessem eu mesmo já estaria investigando como testá-los. Acreditar que por não conseguir explicar absolutamente TUDO o materialismo é só uma premissa tão injustificada quanto todas as outras que não explicam nada é uma posição irracionalista. Há graus de certeza, embora colocar valores seja praticamente impossível eu diria que o materialismo teria uns 90% de certeza enquanto que todos seus competidores somados teriam uns 1%. Talvez um dia alguém consiga mostrar que a consciência é o resultado de um sopro divino, uma alma imaterial, uma simulação computacional alienígena ou mesmo que simplesmente existe como parte fundamental do unverso, pode ser. Mas até lá o materialismo é a única hipótese de trabalho que conhecemos.

      Essa mesma posição, de considerar uma hipótese de maneira cética e temporariamente até que outra melhor apareça, se aplica a todas as posições filosóficas que os cientistas aderem. Repito: nenhum cientista irá afirmar contudo que essas hipóteses são as únicas que podem existir ou que são verdades absolutas e incontestáveis.

      • Dcmoreira 19/09/2014 às 12:19 #

        Cara, coloca uns parágrafos aí pra ajudar a ler.

      • Eduardo Pinheiro 26/09/2014 às 19:37 #

        Repare que o fisicalismo é só uma das premissas injustificadas que apontei.

        E quanto a minha crítica de circularidade, na qual assumindo a premissa de saida, não ha prova da premissa durante o processo de investigação, ou ao final dele? Afinal, o que estou afirmando no meu texto é que embora não haja prova alguma do fisicalismo, e o modelo fisicalista não explique coisas básicas sobre como se configuraria uma consciência (além de mera especulação), ele é “justificado” como que se estivesse sendo, paulatinamente, “provado” pelos relativos pequenos avanços nas neurociências…

        Quanto a epistemologia das probabilidades, além dessas probabilidades serem puro achismo seu, há problemas sim com relaçao a uma coisa ser “99% certeza”. Não existe “certeza estatística”. Mesmo que um porcentual fosse relevante (e eu concordo que é a visão prevalente na ciência, aliás, por isso mesmo a critico, e não o dualismo), lembro que você tirou da cartola.

        Quando você usa o termo “materialismo”, você quer dizer o materialismo histórico de Karl Marx? Essa sua preferência pelo termo acho gozada, porque não e ténicamente correta. Matéria, até onde eu saiba, é um dos tipos de substância física. Quando você fala “materialismo” você quer dizer que não há eletricidade no cérebro? I’m pulling your leg, mas há bons motivos para chamar essa doutrina de fisicalismo, e não de materialismo.

        Lembro que apontei os vários tipos de monismo, e por exemplo, como alguém levantou lá nos meus comentários, há fisicalismos bem loucos sendo propostos por filósofos atualmente, fisicalismo panpsiquista, por exemplo. O problema de um “porcentual” para algo que possui contradições evidentes é claro. Como algo contraditório pode existir no mundo, ou servir de base de explicação para o mundo? O ônus da prova de quem propaga o monismo (e o fisicalismo/materialismo é uma forma de monismo) é enorme, e inclui contradições. Dai fica difícil, se a pessoa não tem um embasamento sobre os próprios preconceitos metafísicos, discutir.

      • André Luzardo 27/09/2014 às 10:48 #

        Caro Eduardo, não é minha intenção entrar em um debate profundo sobre filosofia da ciência; a área é vasta e não acho que a seção de comentários de um blog seja o melhor lugar para se tratar disso. Ademais me parece que vamos ficar só dando voltas em círculos pois não concordamos com coisas básicas. A intenção do meu post foi apontar algumas falhas no seu texto quanto a ciência, e não tecer uma longa crítica ponto a ponto. Note que tentei também fazer isso da maneira mais construtiva o possível.

        Quanto a circularidade, vou falar sobre o materialismo na neurociência pois esta é a área em que trabalho e mais conheço, mas acho que um argumento parecido se aplicaria também na física. Não dependemos do materialismo para “provar” coisa alguma na neurociência. O materialismo não é uma premissa. Ao contrário, o materialismo emerge como uma conclusão, de fato a única plausível, que podemos tirar dos resultados. Se removêssemos qualquer menção ao materialismo (ou seja que a mente é produto da físico-química cerebral) a neurociência continuaria exatamente como é, e inevitavelmente seríamos levados a concluir, como fazemos, que o materialismo é a única conclusão plausível frente aos dados que atualmente conhecemos.

        Essa é a postura científica. Agora tudo muda quando analisamos esses termos pelo “microscópio” filosófico, como premissas de sistemas lógico-filosóficos, e não me surpreende em nada que filósofos tenham encontrado contradições, não estariam fazendo um bom trabalho caso contrário! Mas nem sempre uma contradição filosófica implica em uma contradição ou problema para a ciência. Como disse antes, a ciência não gosta de dogmas e se baseia no menor número possível de premissas. O materialismo não é uma delas. A “causalidade”, ou o problema da indução como entendia David Hume, pode ser considerada uma premissa da ciência, mas a atitude científica é a mesma de Hume: conceda-me esta pequena premissa e todas as explicações científicas, incluindo toda tecnologia (foguetes, laser, computadores), seguem. E, de fato, seguem; até hoje não encontramos nenhuma razão para abandonar essa concessão. Portanto, em resumo, seria uma espécie de “filosofismo” usar contradições dentro da filosofia como se elas por si só invalidassem ou limitassem certas áreas da ciência. Isso não é desmerecer a filosofia, ela é extremamente importante para organizar o conhecimento, definir novas questões e explorar de maneira racional o desconhecido.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: