Hipnose, sugestão e picaretagem

17 nov

“Tá amarrado, tá amarrado!” grita o pastor e os braços da mulher se contorcendo freneticamente no chão fecham-se obedientemente por trás das suas próprias costas. O público se agita e o pastor pede calma, “o demônio tá amarrado, tá furioso mas tá amarrado!” A mulher agora sentada no chão faz cara feia, bufa, esbraveja mas permanece com os braços por trás das costas como se estivesse realmente amarrada. “Eu vou assoprar da minha boca,” comanda o pastor aos berros, “e vai sair o fogo do espírito santo, e ele vai cair: BUUUUUUUUUU!!” A mulher cai no chão, esperneando loucamente. Quando o pastor toca na sua cabeça e grita “em nome de Jesus, SAI!” ela prontamente se acalma, relaxa os braços, volta a si e levanta aos aplausos e gritos de “glória a deus” da platéia.

Mulher atravessa a rua na faixa de segurança. Um homem corre em sua direção, pisa (suavemente) em seus pés, profere rapidamente algumas palavras enquanto segura-a pelos ombros, segue seu caminho e a mulher fica no meio da rua como se os seus pés estivessem colados no chão.

Supondo que as duas mulheres acima não são atrizes, e tudo indica que não são, a aparente bruxaria desses casos nada mais é que o resultado de sugestão hipnótica. Embora seja comum imaginar o estado hipnótico como uma espécie de transe induzido por longas e repetidas instruções proferidas calmamente por um hipnotizador (“você vai dormir, dormir…”) essa forma de indução hipnótica (como é formalmente chamado o processo que induz ao estado hipnótico) não é necessária. De fato, é possível produzir muitos dos efeitos da sugestão hipnótica sem relaxamento ou uma longa indução prévia. A involuntariedade do comportamento induzido por sugestão geralmente deixa a pessoa surpresa. Sem saber o que tomou “posse” de seu corpo, ela fica mais suscetível a acreditar em algum tipo de baboseira espiritual, tornando-se presa fácil para curandeiros mediúnicos, pastores pilantras, cirurgiões espirituais e outros charlatões. Para entender como podemos ser sugestionados a ponto de encarnar o demo, não conseguir levantar os pés do chão, ter uma agulha hipodérmica atravessada na mão sem sentir dor ou, como veremos a seguir, falar em chinês é necessário conhecer um pouco sobre a pesquisa com hipnose.

Mesmer sentava-se em frente ao paciente com seus joelhos tocando os joelhos dos pacientes. Ele  pressionava os polegares dos pacientes em suas mãos e olhava apaixonadamente nos olhos dos pacientes. Em seguida, movia suas mãos dos ombros dos pacientes para baixo ao longo do braço e, em seguida, pressionava os dedos sobre a área abaixo dos diafragmas, às vezes mantendo suas mãos lá por horas. Os pacientes tinham convulsões e sensações [2].

“Mesmer sentava-se em frente ao paciente com seus joelhos tocando os joelhos dos pacientes. Ele pressionava os polegares dos pacientes em suas mãos e olhava apaixonadamente nos olhos dos pacientes. Em seguida, movia suas mãos dos ombros dos pacientes para baixo ao longo do braço e, em seguida, pressionava os dedos sobre a área abaixo dos diafragmas, às vezes mantendo suas mãos lá por horas. Os pacientes tinham convulsões e sensações [2].”

O estudo científico da hipnose sofre até hoje pela associação dessa técnica com todo tipo de charlatanismo e picaretagem. A sua origem remonta a Franz Mesmer (1734-1815) que acreditava na existência de uma força chamada “magnetismo animal,” capaz de auxiliar no processo de cura e passível de ser manipulada através de uma forma de imposição manual. Até a mãe de todas as pseudociências, a psicanálise, começou com o uso da hipnose por Sigmund Freud, que acreditava ser esta uma porta para o que ele chamava de inconsciente. Ron Hubbard, o pai da Dianética e Cientologia, aparentemente também fazia uso dessa técnica em suas demonstrações. Hoje em dia a hipnose continua a ser (ab)usada principalmente por pilantras que prometem melhorar a autoestima, curar a insônia, a depressão e o pior de todos os problemas: a ejaculação precoce.

A hipnose produz um estado de alta concentração, menos suscetível a distração por estímulos externos e internos. Não tem nada de sobrenatural e o sujeito tampouco adquire superpoderes. Existem muitas técnicas de indução hipnótica e nem todas envolvem relaxamento. Como vimos no caso do pastor, é possível induzir um estado hipnótico com apenas um toque, desde que a platéia seja “aquecida” adequadamente. No clássico documentário Marjoe o ex-pastor-mirim explica (e demonstra) como evocava uma espécie de êxtase coletivo usando a música, andando para cima e para baixo no salão, falando cada vez mais rápido e ritmado até que seus fiéis estivessem completamente absorvidos, quando então os fazia caírem no chão paralisados apenas colocando a mão em suas cabeças e gritando “ALELUIA!”. O estado hipnótico pode até mesmo ser induzido pelo próprio sujeito, sem necessidade de um intermediário.

Em um artigo de revisão da Nature [1], os autores listam vários equívocos ainda persistentes. Alguns já mencionei acima mas vale a pena repetir: relaxamento não é essencial ao estado hipnótico e muitos sujeitos podem ser sugestionados sem indução prévia. Outro equívoco está em conceber o estado hipnótico como uma espécie de sono. De fato, não há consenso sobre se o estado hipnótico se trata de um estado distinto de consciência.

Quais são os limites da sugestão hipnótica? É possível sugestionar uma pessoa a fazer qualquer coisa? Foram identificadas até agora três categorias de sugestão [1] por ordem de dificuldade: (1) diretiva ideomotor-ideosensória (braços ou outros membros que se movem sem controle consciente); (2) desafios ideomotores (incapacidade de mover membros, como a pedestre com os pés ‘colados’ no chão) e (3) sugestões cognitivas, ou seja, que envolvem memória, percepção e outros processos psicológicos superiores.

Abaixo vemos um belo exemplo de sugestões do tipo 3 cognitiva:

A Thais parece realmente ver o Justin Bieber, assim como falar o melhor chinês que já vi na minha vida. Estudos com imagens cerebrais mostram que o córtex pré-frontal, sede dos sistemas superiores de raciocínio, tem um papel significativo em experiências como essa, o que pode explicar a vividez da sugestão hipnótica. Outros experimentos mostram que a hipnose pode ser uma experiência fisiológica que faz uso de circuitos neurais normalmente fora do controle voluntário do indivíduo, o que explicaria a involuntariedade do comportamento sugestionado. Em um estudo, a indução hipnótica de diferentes estados cognitivos aumentou ou reduziu a produção de ácido gástrico. Até mesmo o efeito stroop pode ser abolido por hipnose, o que sugere interessantes pesquisas futuras: que outros processos psicológicos básicos podem ser similarmente manipulados?

É possível também produzir o que se chama sugestão pós-hipnótica; uma sugestão dada durante o transe hipnótico que é levada a cabo fora deste. O hipnotizador pode usar um sinal, como uma palavra-chave, que quando proferida fora do transe hipnótico produz a sugestão com a qual foi associada durante o transe. Mas novamente: sugestão pós-hipnótica pode ser produzida até mesmo sem indução hipnótica.

Não é de se admirar, portanto, que a sugestão hipnótica cause espanto e admiração naqueles que não tenham familiaridade com essa área de pesquisa. Tais técnicas, mesmo que realizadas sem treino formal qualquer, por imitação ou tentativa e erro por exemplo, podem trazer fama e influência a pastores evangélicos, cirurgiões espirituais, terapeutas holísticos ou mesmo um hipnotista profissional do tipo pilantra-cura-tudo. E a sugestão hipnótica é apenas um dos muitos tipos de sugestão. Como lembram Oakley e Halligan [1]:

“Sugestionabilidade, é claro, não é prerrogativa exclusiva da hipnose. Exemplos de experiências humanas e comportamentos influenciados pela sugestão fora do domínio da hipnose incluem movimentos ideomotores, interações psicossomáticas, cegueira decisional, oscilação postural, efeito placebo, aprendizagem implícita e tomada de decisão. A sugestão promove e dá forma a expectativas de resposta, que por sua vez continuam a ser um aspecto crucial da sugestionabilidade. Embora a sugestionabilidade assuma muitas formas, é sem dúvida observada mais claramente em ambientes sociais, nos quais a sugestão está embutida na interação com outra pessoa.”

Esse elemento social da sugestionabilidade sempre foi explorado por charlatões de várias extirpes. Hipnotistas profissionais (assim como pastores e médiuns) são mestres da platéia. Sabem, por exemplo, que uma vez que um feito hipnótico é realizado com sucesso o resto da platéia se torna muito mais suscetível (logo a importância de saber escolher o primeiro indivíduo e começar com sugestões simples do tipo 1). O elemento social da sugestão também pode explicar certos fenômenos curiosos como o da resposta psicogênica em massa (ou “histeria em massa” como costumava ser conhecida) um dos quais parece ter ocorrido recentemente na Colômbia.

Por fim, é importante salientar que mesmo que a hipnose não seja uma panaceia cura-tudo, há evidências de que ela possa contribuir como coadjuvante terapêutico em algumas condições clínicas. Em particular, parece haver resultado positivo no uso da hipnose em conjunto com a terapia cognitiva-comportamental no tratamento de dor aguda e crônica, funcionamento imunológico e síndrome do intestino irritável [1]. Mas como tudo na área da psicoterapia, esses resultados devem ser encarados com todo o ceticismo. Transtornos mentais são difíceis de definir claramente e toda intervenção psicoterápica sofre do gigante problema de não ser passível de teste duplo-cego, que é, ironicamente, o único teste que temos para saber se uma intervenção clínica teve realmente efeito ou se esse não passa de … sugestão!

Referências

[1] Oakley, D. A., & Halligan, P. W. (2013). Hypnotic suggestion: opportunities for cognitive neuroscience. Nature Reviews. Neuroscience, 14(8), 565–76. doi:10.1038/nrn3538

[2] Darnton, R. (1968). Mesmerism and the end of the enlightment in France.  Cambridge, Massachusetts: Harvard University. Acessado em http://www3.niu.edu/acad/psych/Millis/History/2004/mesmer.htm

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2 Respostas to “Hipnose, sugestão e picaretagem”

  1. André 07/01/2015 às 19:00 #

    Que revisão da Nature? Não aparece nas referências.

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