Workshop nova-era na USP

1 set

Workshop na USP-Ribeirão Preto sobre “mente quântica” ministrado por americano que relata ter tido uma “experiência face a face e direta com dois seres da Inteligência Superluminar Maior”.Hurtak

Em meio aos cortes no financiamento da ciência brasileira, a USP resolve investir o que sobrou em pseudociência e misticismo nova-era. No dia 2 de Setembro o Instituto de Estudos Avançados da USP organizará o workshop “O Potencial terapêutico do som e a mente quântica”. Será ministrado pelo casal James J. Hurtak e Desiree Hurtak cuja maior contribuição ao conhecimento humano é o livro “As Chaves de Enoch“. Supostamente revelado aos autores pelos tais seres superluminares, ele contém, além da cosmologia passada-presente-futura, a chave que liga o DNA ao nome do deus hebraico:

“O Livro do Conhecimento, As Chaves de Enoch, Chave 202, detalha o código do DNA como uma série de matrizes. A primeira e primordial matriz quadrada consiste de permutações do Tetragrammaton, as quatro letras em hebraico, que se traduzem em Yahweh (Yod-He-Vav-Heh). Esta matriz é intitulada ‘Espírito Palavra’. A tabela ‘Espírito Palavra’ é construída a partir de três letras do nome Divino, que em várias combinações criam as 64 células. Embora o nome divino é escrito com quatro letras, ele usa apenas três do alfabeto (YHV, com o H repetida), assim como DNA ou RNA contém quatro nucleotídeos como ‘letras’ mas lê apenas três de cada vez para fazer o códon que codifica os aminoácidos do nosso corpo. O Divino Nome não é mais estático do que as sequências de DNA, e podem ser rearranjados para funções diferentes (VHY, HYV, HHV, etc).”

O workshop na USP terá como objetivo “dialogar sobre as evidências do efeito positivo do som na saúde e suas interfaces com a consciência. Serão analisadas pesquisas que demonstram o efeito da música como atenuadora de estados de estresse, depressão e dor.” E que evidências seriam essas? Em um post no seu website intitulado “A base comum da ciência, medicina e espiritualidade” J. J. Hurtak fala das suas últimas “pesquisas” sobre o assunto:

“Estamos vendo como o nosso corpo é parte de uma sinfonia de som, que pode ser aumentada por vários sons vibratórios que penetram dentro do neocórtex, redefinindo a ciência pós-einsteiniana. Estamos reconhecendo que esta área superior do neocórtex, utilizando as funções tanto do hemisfério esquerdo como direito, pode ativar poderes supermentais. Mais importante ainda, que o som pode nos ajudar a curar a nós mesmos quando temos o padrão correto de freqüências. […] Acreditamos que até mesmo os templos antigos foram criados com uma ressonância particular para aumentar a consciência. Temos feito uma extensa pesquisa e testes de som em todo o Egito e Yucatán, correlacionando os padrões de ressonância no interior das antigas estruturas de pedra maciça. Usando baixas frequências, bem como SuperSonics, nosso corpo e mente podem sintonizar diferentes realidades. Estas frequências não são apenas medições parafísicas e musicais, mas maneiras de ativar contato real com níveis de evolução paralela. […] Nós somos basicamente diapasões de energia, trabalhando dentro de um sistema planetário e rede cósmica.”

Soa bem legítimo. Também não poderia faltar menção à Stuart Hameroff e Roger Penrose, dois cientistas que foram manchete recentemente devido à sua teoria da mente quântica. Não conheço em profundidade essa última, mas qualquer um que tenha seguido o trabalho de Penrose nas últimas duas décadas sabe o quanto ele foi abusado pelos picaretas quânticos. Penrose é um renomado físico-matemático e seu trabalho nessa área é impecável. No livro “A mente nova do rei“, de leitura fortemente recomendada, ele faz um tour pela matemática e física modernas e somente no último capítulo ele desenvolve brevemente sua hipótese de que processos quânticos podem ser relevantes para o entendimento da consciência. Essa hipótese na minha opinião é fraca e até agora nenhuma evidência foi encontrada em seu favor, mas o fato que um físico renomado propôs um link entre física quântica e mente humana não poderia passar desapercebido pelo mundo místico.

Um workshop por menor que seja sempre envolve custos, desde o coffee-break, o material de divulgação até as passagens aéreas e hospedagem dos palestrantes entre outros. O que eu gostaria de perguntar ao Instituto de Estudos Avançados da USP, e especialmente à organizadora, a professora Milena Flória-Santos da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, é se esse custo se justifica. Isso, claro, sem falar no dano a credibilidade da instituição.

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2 Respostas to “Workshop nova-era na USP”

  1. Herculanun 01/09/2015 às 09:47 #

    O sorrisinho dos dois no poster é revelador…rs

  2. João Roberto 01/09/2015 às 10:52 #

    Que absurdo! Justo na USP.

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