Zika Vírus: rumores e teorias que você deve duvidar

24 fev

O artigo publicado originalmente no The New York Times/Health, em 19 de fevereiro de 2016, faz um resumo simples e direto, que pode nos ajudar a interromper essa onda de boatos que correm nas redes sociais e que só colaboram para confundir a população em geral e dificultar o combate ao vírus de forma cientificamente comprovada.


Título original: Zika Virus Rumors and Theories That You Should Doubt

Embora não haja nenhuma prova absoluta de que o vírus Zika esteja por trás da onda de microcefalia no Brasil e surtos da síndrome de Guillain-Barré em seis países, as principais autoridades de saúde do mundo estão perto de afirmar que sim.

“A cada dia que passa, acumulam-se evidências de que ele é a causa,” Dr. Thomas R. Frieden, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, disse recentemente.

Dr. Bruce Aylward, que está liderando a reação da Organização Mundial da Saúde, disse na sexta-feira: “Neste momento, o vírus é considerado culpado até que se prove o contrário.”

Muitos rumores culpando outras causas potenciais surgiram, e as autoridades têm trabalhado duro para desmascará-los. Aqui está uma amostra das teorias mais proeminentes, coletadas a partir das redes sociais, juntamente com as respostas dos cientistas.

São os mosquitos geneticamente modificados a verdadeira causa dos defeitos de nascimento?

Esse som de zumbido que você ouve é um ‘não’.

A empresa britânica Oxitec lançou mosquitos geneticamente modificados no Brasil, em uma tentativa de controlar a dengue. Mas os surtos posteriores de microcefalia estavam longe. Por exemplo, a maior liberação de mosquitos foi em Piracicaba, que fica a 1.700 milhas do Recife, onde a microcefalia era mais comum. Os mosquitos também foram liberados nas Ilhas Cayman, Malásia e Panamá sem causar problemas.

Mosquitos voam menos de uma milha em suas vidas. Além disso, apenas mosquitos machos foram liberados. Eles não picam os seres humanos nem propagam a doença, e foram geneticamente programados para morrer rapidamente.

Poderia um larvicida, na água potável, estar causando microcefalia?

Não.

Entomologistas têm descartado como “ridícula” a ideia de que o larvicida pyriproxyfen poderia ter causado uma onda tão grande de defeitos de nascimento. O larvicida não ataca as células nervosas; é um simulador químico de um hormônio de insetos que sinaliza para as larvas pararem de crescer, e hormônios de insetos não colocam em perigo os seres humanos.

Pyriproxyfen foi aprovado nos Estados Unidos em 2001 e é vendido como um tratamento de pulgas para cães e gatos e como um spray de tapete para matar pulgas. Bebês têm engatinhado neste material por anos sem sofrer dano aparente. No Brasil e na Polinésia, a lesão cerebral ocorrida nas crianças se deu em muitas comunidades onde o larvicida não é usado.

São as vacinas culpadas?

Não é plausível.

Rumores culparam um “lote vencido de vacina contra a rubéola” e a introdução de uma nova vacina contra a coqueluche no Brasil, além do alumínio existente na vacina. Isso também não é plausível.

Não houve surto de rubéola entre as mulheres grávidas e nenhuma evidência de um “lote ruim ou vencido.” Nenhuma vacina é usada apenas no nordeste do Brasil. A nova vacina contra a coqueluche tem sido usada desde a década de 1990 em muitos países, incluindo os Estados Unidos. Foi introduzida porque a anterior causava dor, febre e, em casos raros, convulsões. Nenhuma jamais causou microcefalia.

E se outra doença está causando a microcefalia e síndrome de Guillain-Barré?

O crescente número de evidências apontam para o Zika.

O surto de microcefalia começou em cidades brasileiras do Nordeste, onde os médicos já haviam visto milhares de pessoas com uma “doença misteriosa” que mais tarde foi provada ser causada pelo vírus Zika. Embora não haja nenhum teste rápido para a Zika, os sintomas são facilmente reconhecidos – erupção cutânea, olhos vermelhos, febre e dor nas articulações, em um grande número de pacientes que quase nunca ficam gravemente doentes.

Embora inicialmente mal diagnosticada, os médicos brasileiros sabiam há meses que eles tinham um grande surto de uma doença incomum em suas mãos. A mesma coisa aconteceu em Yap Island na Micronésia em 2007 e na Polinésia Francesa em 2013.

Algumas semanas após a “doença misteriosa” aparecer, os médicos começaram a notar um aumento na paralisia em adultos – síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que pode ser desencadeada por infecções virais. Houve um aumento semelhante nos casos na Polinésia Francesa, em 2013, e casos estão agora surgindo na Colômbia, El Salvador, Suriname, Venezuela e Martinica – sempre em sintonia com surtos de Zika. Em alguns casos, o vírus Zika foi encontrado no sangue ou na urina das vítimas.

Cerca de um ano após o surto ter começado no nordeste do Brasil, os casos de microcefalia começaram a aparecer entre os recém-nascidos de lá. Patologistas no Brasil, Estados Unidos e Europa têm encontrado agora vírus Zika no tecido cerebral de fetos microcéfalos natimortos e abortados e no líquido amniótico em torno deles.

Poderia o Brasil ter subestimado os casos de microcefalia durante anos?

É possível, mas não com margens suficientemente grandes para explicar o surto atual.

Alguns pesquisadores acreditam que o Brasil fez uma baixa contagem dos casos, mas não por uma grande margem. Definições de microcefalia variam, mas os países europeus e norte-americanos relatam aproximadamente um caso por 5.000 nascidos vivos, até um por 10.000. Antes do aparecimento do Zika, o Brasil relatou 1 um caso para cada 20.000 nascidos vivos – em outras palavras, a metade ou um quarto dos muitos casos que poderia realmente ter tido.

Antes do surto, os sete Estados do Nordeste tropical do Brasil, onde a microcefalia apareceu pela primeira vez, haviam relatado cerca de 40 casos de microcefalia em um ano. Em outubro, neurologistas em Recife, que normalmente viam bebês microcéfalos muito raramente, encontraram-se realizando tratamento de cinco ou mais de cada vez. Até 17 de novembro de 2015, apenas os sete Estados tiveram 400 casos notificados. Um mês depois, apenas um deles, Pernambuco, informou mais de 600.

Eventualmente, o Ministério da Saúde brasileiro entendeu que os médicos estavam notificando mais casos por relatórios, por isso, em dezembro, ele alterou sua definição para incluir apenas as crianças com cabeças de menos de 32 centímetros de circunferência, em vez de 33. Mas os casos continuaram a crescer. Mesmo a subestimação anterior não explicaria a enorme onda que se seguiu ao aparecimento do Zika.

Rumores como estes geralmente surgem nos primórdios de epidemias?

Com frequência.

“Os rumores são o sangue vital de uma epidemia,” disse o Dr. Howard Markel, um médico historiador da Universidade de Michigan.

Ele deu vários exemplos: Na Idade Média, a praga foi atribuída a judeus, que foram acusados de envenenamento de poços. Quando a praga irrompeu na Chinatown de San Francisco em 1900, as autoridades locais culparam “dietas de arroz.” Em 1892, um surto de cólera em Nova York foi atribuído a peixes contaminados.

Quando surgiu a AIDS, rumores persistiram durante anos de que não era devido a um vírus, mas uma “doença do estilo gay de vida”, e que o sistema imunológico teria sido adversamente afetado por uma combinação de promiscuidade sexual e drogas, como o nitrato de amilo, em homens exaustos por dançar em discotecas. Quando a AIDS foi encontrada também na África, os mesmos “negacionistas” culparam uma combinação de febres crônicas, perda de peso, diarreia e tuberculose.

Por que os rumores se espalham tão eficazmente?

Há três razões.

Primeiro, Dr. Markel disse, porque muitos contêm grãos de verdade. Mosquitos geneticamente modificados foram lançados no Brasil e o larvicida foi usado em algumas cidades.

Em segundo lugar, porque muitos rumores têm um bode expiatório conveniente. Doenças já foram atribuídas a grupos étnicos. Agora corporações são suspeitas. O pyriproxyfen no Brasil foi feito pela Sumitomo, uma empresa química japonesa, e rumores enfatizaram que a Sumitomo tinha uma parceria anterior com a Monsanto, uma empresa americana vista com desconfiança por muitos ambientalistas.

Em terceiro lugar, porque alguns rumores são espalhados por pessoas proeminentes. O rumor do larvicida foi iniciado por um grupo que se autodenomina os “Médicos das Cidades de Colheitas Pulverizadas.” Entre os que negam a AIDS declaradamente estão Peter H. Duesberg, um biólogo molecular premiado, e Thabo Mbeki, que adotou a visão do Dr. Duesberg enquanto era presidente da África do Sul.

 

Fonte: The New York Times

Tradução: Patricia K. De Camillis

 

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3 Respostas to “Zika Vírus: rumores e teorias que você deve duvidar”

  1. Rafael 24/02/2016 às 07:42 #

    Acho que faltou lembrar que outros patogenos podem estar envolvidos em um fenômeno sobreposto: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/02/1740554-doenca-em-bebes-e-gravidas-avanca-longe-dos-holofotes.shtml

    Ótimo post, parabens

  2. Diana Mapelli 24/02/2016 às 10:08 #

    Ótima publicação. Realmente, os rumores aqui no nordeste são da “vacina vencida”.

    Parabéns.

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