Quem pode falar sobre discriminação social?

24 set

Faz algum tempo que tenho encontrado pessoas as quais, a fim de defender grupos socialmente discriminados, endossam duas posições:

a) Que somente grupos discriminados podem reconhecer o que é discriminação.

b) Portanto, que somente tais grupos podem fazer ciência a respeito da discriminação

Particularmente, entendo que tais posições são contraditórias, assim, este texto realizará uma crítica dessa contradição e tentará demonstrar como é possível superá-la e fazer ciência objetivamente e independentemente de quem sejamos.

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1. No mais das vezes, quando uma pessoa sofre algum tipo de discriminação social ela experimenta uma sensação subjetiva de sofrimento ou humilhação, contudo, como não somos capazes de entrar em sua mente ou em seu corpo para saber o que ela sentiu, nem também de partilhar seu sofrimento para cada um sofrer um pouquinho, nós não temos como experimentar sua sensação.

Apesar disso, somos seres empáticos e, diante do sofrimento intangível do Outro, fazemos uma inferência: pensamos em nossos momentos de sofrimento e imaginamos que aquilo que ele esteja sentindo seja, em alguma medida, parecido com o que já sentimos em nossas vidas em outras circunstâncias.

Trata-se um gesto belo e saudável que busca nos aproximar dos demais, porém, seu alcance é bastante limitado por não poder garantir que nosso sofrimento seja parecido com o sofrimento alheio, posto que nunca podemos sentir o que ele sente para fazermos a comparação. Nossa inferência constitui uma espécie de “aposta ética” que fazemos por nos importarmos com os demais e que, de certo modo, expõe também o limite de nossa compreensão a respeito deles: podemos inferir sensações na medida em que as experimentamos e é dificílimo compreender o que foge demais de nossa própria experiência. Por isso, não é incomum que, estando perante alguém que sofre, vivamos uma espécie de luto, de respeito e pesar por seu sofrimento impartilhável, inacessível a nós. Para o bem e para o mal, cada um deve experimentar inteiramente e solitariamente sua própria dor.

Postas as coisas assim, é simples dar um passo adiante e dizer que, como somente o discriminado tem acesso à própria experiência subjetiva, somente ele pode estudar com propriedade a discriminação. Desse ponto de vista, a ciência nasceria da experiência mais pessoal e estaria fechada para os grupos discriminadores ou simplesmente não discriminados — é o que pensam os defensores das posições que citei no princípio do texto.

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2. Mas seria mesmo possível fazermos ciência partindo da sensação subjetiva de sofrimento? Bem, se o sofrimento oriundo da discriminação é pessoal e inacessível para os outros, segue-se disso que não é possível assemelhá-lo com o sofrimento de mais ninguém, nem mesmo com aqueles de outras pessoas também discriminadas, pois mesmo que falemos sobre o sofrimento de forma semelhante, nunca podemos acessar o sofrimento de outra pessoa para garantir que essa semelhança não seja só linguística. Em outras palavras, mesmo que duas pessoas discriminadas descrevam suas sensações de discriminação da mesma maneira, não podemos garantir que elas sentem a mesma coisa por não podermos comparar suas sensações, mas somente suas palavras. Consequentemente, seria impossível fazer ciência a respeito da discriminação já que mesmo duas pessoas discriminadas da mesma forma não teriam como dizer que passaram pelo mesmo sofrimento. Na verdade, caso levemos essa crítica ao extremo, sequer seria possível usarmos palavras tais como “sofrimento” para descrever uma sensação aparentemente comum entre duas ou mais pessoas, uma vez que seria impossível juntar sensações subjetivas de indivíduos diferentes por um mesmo nome.

Logo, fazer ciência a partir de uma sensação subjetiva não é nem mesmo errado ou difícil, é simplesmente impossível (*). Como cada um só experimenta o próprio sofrimento e, por mais que percebamos o sofrer do outro ou que “soframos com ele”, só podemos supor seu sofrimento por meio do nosso, quando uma pessoa discriminada tentasse fazer ciência unicamente por sua subjetividade, tudo o que poderia relatar e estudar seria sua própria experiência a partir dela mesma, uma vez que nada teria para ligá-la ao Outro.

A despeito disso, não é impossível investigar cientificamente a discriminação e o preconceito, contudo, a investigação científica não partirá da sensação subjetiva dos discriminados, mas justamente daquilo que independente da subjetividade. Vamos determinar o que isso seria.

11068046_831776440239159_3936356097853089978_n3. Bem, consideremos um caso qualquer que possa ser caracterizado, sem nenhuma dúvida, como sendo um caso de discriminação social. Pensem no exemplo que quiserem, desde que o considerem inequívoco.

Para que caracterizemos tal caso como sendo mesmo de discriminação social e não apenas como uma “descortesia isolada” de uma pessoa contra outra, anteriormente, precisamos supor que esse caso seja parecido com outros casos, afinal, uma descortesia que não tivesse relação com nenhuma outra não poderia ser caracterizada como social justamente por ser única e não social. Tratar-se-ia apenas um caso específico de uma pessoa qualquer maltratando outra pessoa qualquer.

Temos aí então nosso primeiro requisito para identificarmos um caso de discriminação social: cumpre que ele não seja único, pois é preciso que muitos sejam maltratados de maneira semelhante para que passemos do âmbito particular para o âmbito social.

Além desse caso dever ser parecido com outros, ele também necessita ter causas semelhantes ou simplesmente iguais a esses outros, sendo preciso que, entre um caso de discriminação ocorrido numa esquina e outro caso de discriminação ocorrido em outra esquina, exista ao menos um fator comum os relacionando, do contrário, seguir-se-ia a mesma consequência que relatei: serão dois casos independentes sem qualquer relação entre si, pois duas descortesias parecidas mas com causas muito diferentes são apenas coincidentemente semelhantes. Elas não estariam interligadas ou estariam interligadas apenas pelo acaso.

Temos assim o segundo e último requisito: a existência de causas comuns entre diversos casos de discriminação.

Desse modo, qualquer caso de discriminação social tem, no mínimo, relações de semelhança com outros casos e causas compartilhadas com eles, de maneira que aí está aquilo que ultrapassa a experiência subjetiva do discriminado e que pode fundamentar a investigação científica a respeito da discriminação.

Poderemos identificar casos assim por meio da semelhança que as várias práticas discriminatórias têm entre si e das causas que compartilham, duas coisas que podem ser verificadas empiricamente e, mais que isso, que são verificáveis de forma objetiva, ou seja, que independem de experimentarmos ou não o sofrimento do discriminado. Por conta disso, podemos de igual modo reconhecer um caso de discriminação social que nunca tenhamos sofrido, bastando conhecermos aquilo que objetivamente o caracteriza.

De fato, o sofrimento do Outro continua restrito a ele, mas ainda assim podemos identificar e estudar o que objetivamente provoca esse sofrimento e combater isso por meio de leis, políticas públicas, educação e coisas desse tipo. Se a subjetividade é uma prisão, podemos ao menos falar através das grades, entender os limites que elas nos colocam, fazer companhia uns aos outros e, por fim, armar ocasionais motins contra quem nos oprime.

(*): antes que alguém pense em citar a psicologia como um contra exemplo, adianto-me aqui dizendo que a psicologia não estuda simplesmente sensações particulares, mas as articula dentro de um quadro conceitual maior que as explica como parte da psique, essa sim seu objeto específico de estudo.

Nota: as tirinhas são obras, respectivamente, do André Dahmer e do Ricardo Coimbra, e só estão aí para te provocar mesmo.

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Uma resposta to “Quem pode falar sobre discriminação social?”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Quem pode falar sobre discriminação social? (texto no Blog cético) | Ao invés do inverso - 24/09/2016

    […] Publiquei no Blog cético um texto sobre discriminação social e ciências humanas intitulado Quem pode falar sobre discriminação social?. Fazendo um breve resumo de seu conteúdo, o texto enfrenta o argumento de que somente pessoas discriminadas podem identificar discriminação e fazer ciência acerca da discriminação, um assunto bem popular atualmente que pode interessar os leitores deste espaço. Vocês podem conferir o texto aqui. […]

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