Quão confiáveis são os exames de DNA e outros de local de crime?

18 jun

O sistema de justiça criminal tem um problema chamado criminalística. Essa foi a mensagem que ouvi no Forensic Science Research Evaluation Workshop, nos dias 26 e 27 de maio na AAAS (American Association for the Advancement of Science) em Washington, DC. Eu fiz uma palestra sobre pseudociência, mas em seguida ouvi com preocupação como os muitos campos da ciência forense que eu acreditava serem confiáveis (DNA, impressões digitais, etc) na verdade utilizam técnicas não confiáveis ou não testadas e apresentam inconsistências entre avaliadores de evidências.

A conferência foi organizada em resposta a uma publicação de 2009 pelo National Research Council (Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA) intitulado Strengthening Forensic Science in the United States: A Path Forward (Fortalecendo a Ciência Forense nos Estados Unidos: Um Caminho Adiante), comissionado pelo Congresso americano quando se tornou claro que o DNA era a única ciência forense (relativamente) confiável. O relatório concluiu que “o sistema de criminalística, incluindo pesquisa e prática, tem sérios problemas que só podem ser corrigidos por um compromisso nacional por uma profunda revisão da estrutura que suporta a comunidade de ciência forense neste país”. Ficou determinado que diversas áreas precisavam de mais pesquisas, entre elas: precisão e taxas de erros de análises forenses, fontes de potenciais vieses e erros humanos de interpretação por Peritos Criminais, datiloscopia, exames em armas de fogo, marcas de ferramentas, marcas de mordidas, pegadas e impressões de pneumáticos, análise de padrões de manchas de sangue, grafismo, cabelos e pelos, coberturas (de tinta, por exemplo), química (incluindo drogas), materiais (incluindo fibras), fluidos, sorologia, e análise de incêndios e explosivos.

Vejamos o exemplo de incêndios. De acordo com John J. Lentini, autor do livro definitivo Scientific Protocols for Fire Investigation (Protocolos Científicos para a Investigação de Incêndios), a área é repleta de má ciência. “O que aquele padrão de queima significa?” ele lembra de perguntar a um jovem investigador em uma de suas mais de 2000 investigações de incêndios. “Absolutamente nada” era a resposta correta. Peritos de locais de incêndio encontram padrões inexistentes na maior parte das vezes, Lentini explicou, ou eles pensam que determinada marca significa que o fogo queimou “rápido” ou “devagar”, supostamente indicado por formações na madeira: bolhas pequenas e achatadas indicariam uma queima lenta, bolhas grandes e brilhantes uma queima rápida. Besteira, ele disse. Pode demorar para o fogo pegar, mas uma vez que um sofá ou uma cama queimam e atingem certa temperatura, não é mais possível descobrir muito quanto à causa.

Lentini derrubou um mito sobre janelas de vidro no qual rachaduras indicariam aquecimento rápido supostamente causado por um acelerante. Na verdade, as rachaduras são causadas pelo resfriamento rápido, como quando bombeiros jogam água em uma construção em chamas com janelas. Ele também notou que marcas de queima no chão não são o resultado de um líquido deliberadamente despejado nele. Quando um incêndio consome um cômodo inteiro, o calor intenso queima até mesmo o chão, também derretendo metal e deixando marcas de chama sob o limiar de uma porta, o que muitos investigadores presumem indicar o uso de acelerante. “A maior parte da ‘ciência’ de análise de incêndios e explosivos foi produzida por companhias de seguros visando encontrar evidências de incêndio criminoso para não precisarem pagar seus segurados”, Lentini me explicou quando eu perguntei como a sua área teria ficado tão contaminada com pseudociência.

Itiel Dror do JDI Center for the Forensic Sciences na University College London fez uma palestra sobre suas pesquisas com “cognição forense” – como vieses cognitivos afetam cientistas forenses. Por exemplo, o viés retrospectivo pode levar alguém a formar uma linha indutiva partindo do suspeito até a evidência, e então o viés de confirmação pode levar alguém a encontrar evidências adicionais contra o suspeito mesmo que nenhuma exista de verdade. Dror discutiu estudos que mostram “que o mesmo perito, avaliando as mesmas impressões em diferentes contextos, pode chegar a decisões diferentes e contraditórias”. Não apenas impressões papilares. Até mesmo a análise de DNA é subjetiva. “Quando foram pedidas as interpretações de 17 especialistas em DNA norte-americanos sobre dados de um caso criminal julgado naquela jurisdição, eles produziram interpretações inconsistentes”, Dror e seu coautor escreveram em um artigo de 2011 na Science and Justice.

Não se sabe quantas pessoas inocentes já foram condenadas com base em má ciência forense, mas o relatório do National Research Council recomenda aumento substancial de financiamento para permitir que laboratórios produzam experimentos para melhorar a validade e confiabilidade dos muitos subcampos da criminalística. Juntamente com uma Comissão Nacional de Ciências Forenses, que foi criada em 2013. É um começo.

– Michael Shermer

Sugerido e traduzido pelo leitor Thiago Gasparino.

Clique aqui para acessar o original em inglês.

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