O medo irracional dos pesticidas

3 jul

O projeto de lei que trata sobre o uso dos pesticidas (PL 6.299/2002) suscitou reações extremamente negativas na mídia, assim como várias alegações sobre o uso e efeito destas substâncias que, se verdadeiras, seriam extremamente alarmantes. O El País chamou o projeto de lei de “operação para afrouxar ainda mais a lei de agrotóxicos” em uma matéria repleta de críticas negativas e alegações fortes como a de que o Brasil é “bastante permissivo” com agrotóxicos, permitindo, segundo ela, muitos que já foram proibidos em outros países. A BBC News Brasil, geralmente bem moderada e embasada (mas nem sempre), publicou uma matéria um pouco mais imparcial mas ainda assim com uma manchete bastante alarmista: “na contramão de Europa e EUA, Brasil caminha para liberar mais agrotóxicos“. Organizações de ativistas apelidaram a proposta de “PL do veneno” e publicaram uma análise onde afirmam, entre outras coisas, que o Brasil “é o líder do ranking mundial de consumo de agrotóxicos” e conclui que com a nova lei “a saúde humana e o meio ambiente saem perdendo, enquanto as empresas de agrotóxicos e os grandes produtores agrícolas aumentam seus lucros”. Nas redes sociais podemos encontrar ainda alegações usando da autoridade científica para condenar a PL. A página de divulgação científica Pense Ciência (com mais de 180 mil seguidores) é um exemplo:

A página e blog “Direto da Ciência” do jornalista Maurício Tuffani fez vários posts criticando a proposta, como este:

Não me considero especialista nas minúcias que envolvem a regulação do uso de pesticidas no Brasil, mas suspeito que tampouco é a grande maioria que opina sobre o tema. O que posso oferecer como contribuição a esse debate é a minha experiência como cético em analisar alegações duvidosas e argumentações falaciosas. E essas não faltam.

O primeiro a notar, o que chamou originalmente minha atenção ao tema, é a semelhança suspeita dessa narrativa anti-pesticidas com a do movimento anti-transgênicos. A insistência em usar palavras carregadas de conteúdo emocional (“veneno”), a alusão à pressão e lobby de grandes multinacionais, o alarmismo quanto ao risco iminente a população e seus alimentos, o apelo à falácia naturalista, a quimiofobia, tudo isso são características chaves do movimento anti-transgênicos.

O segundo é o descuido com a interpretação dos dados. Há evidências de que o Brasil realmente é permissivo com agrotóxicos ou que os usa mais que outros países? A figura abaixo mostra que não somos nem de longe o país que mais usa pesticidas por hectare cultivado:

pesticide-use-per-hectare-of-cropland

Vários países mais desenvolvidos que o Brasil usam mais pesticida por hectare. Mas afinal por que esses países usam aparentemente tanto pesticida? A resposta está no excelente artigo da Our World in Data de onde a figura acima foi extraída: pesticidas e fertilizantes aumentam a produção agrícola e evitam perdas. O uso de pesticidas previne a perda de cerca de 44% do valor total da produção agrícola mundial. Mesmo assim, as perdas por causa de doenças ainda representam 23% desse valor total. Se a preocupação é, como deve ser, com o meio-ambiente, perdas na agricultura são um mal sinal pois indicam que não estamos usando a área cultivável (leia-se desmatada) de maneira ótima. De fato, pelo menos um estudo indica que o Brasil tem potencial para fazer duas colheitas por ano, ao invés da única atual, dobrando sua produtividade e evitando que novas áreas sejam desmatadas. E não parece haver outra maneira de otimizar a produção que não inclua o uso racional e preciso de pesticidas, fertilizantes e transgênicos.

Outro descuido com dados é a alegação frequente de que os brasileiros estão consumindo produtos “envenenados”. A matéria do El País afirma que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão “contaminados por agrotóxicos”. No entanto a fonte desses dados, um relatório da ABRASCO de 2015, menciona uma figura mais baixa, de 63%. Porém o relatório da ABRASCO apenas cita (página 56) dados de outro relatório, produzido pela Anvisa, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) de 2011. Aqui a coisa muda completamente de figura. O PARA analisa o Limite Máximo de Resíduo (LMR) tolerável por alimento, uma metodologia obviamente sensata pois “o veneno está na dosagem” e não na simples presença detectável de alguma substância. E o que eles encontraram? Que 64% das amostras eram satisfatórias (PARA 2011), ou seja, sem resíduos detectáveis ou dentro do limite tolerável. A grande maioria das amostras insatisfatórias, compondo 32% do total, continham pesticidas não autorizados mas ainda assim dentro dos limites toleráveis. Apenas 4.2% do total analisado continha resíduos acima do tolerável. Como explicar tamanha distorção dos dados? Para chegar ao número de 63% de “alimentos contaminados” a ABRASCO juntou todas as amostras que continham resíduos detectáveis, mesmo os que estavam dentro dos limites toleráveis: 0.36+0.64×0.42=0.63. A ABRASCO violou conhecimentos de toxicologia básica, enquanto o EL País foi além e violou também a matemática arredondando 63% para 70%.

PARA2011

Resultados do PARA de 2011 (figura 3, página 18).

Os resultados do PARA na verdade mostram que os alimentos vem ficando ainda mais seguros com o tempo. Em 2012 o número de amostras satisfatórias foi de 71% e o de resíduos acima do tolerável 4%. Em 2015, o último PARA disponível, esses números eram respectivamente 80.3% e 3.01%.

PARA2015

Resultados do PARA de 2015 (figura 3, página 23).

Contudo, o PARA de 2015 faz uma análise mais cuidadosa que os anteriores e passa a incluir uma discussão sobre os riscos agudos e crônicos da ingestão de pesticidas. Eles esclarecem que “os diversos LMRs aprovados para um determinado pesticida levam em consideração a ingestão diária desses resíduos ao longo da vida” e que portanto, para haver a possibilidade de algum risco crônico “seria necessário o consumo de vários alimentos contendo uma quantidade de determinado agrotóxico sempre superior aos limites máximos estabelecidos todos os dias durante anos” (pág. 105). Portanto, mesmo que 3% dos produtos apresentem resíduos acima do tolerável, só haveria risco se a pessoa ingerisse esses produtos específicos todos os dias durante anos. De fato, um estudo de 2013 é mencionado (nota de rodapé da página 105) em que os dados do PARA de 2009 a 2011 foram analisados e o risco foi considerado aceitável. Quanto ao risco agudo, mais fácil de ser quantificado, o PARA chegou a conclusão de que somente 1.11% das amostras poderia apresentar algum problema. Ainda, “esse potencial de risco foi observado, principalmente, nas frutas abacaxi e laranja, que, geralmente, são consumidas sem casca” (pág. 117). Caso você esteja se perguntando qual é o risco nos países europeus, que usam ainda mais pesticida que o Brasil, o levantamento mais recente indica que apenas 2.8% das amostras apresentam resíduos acima do tolerável, um resultado muito parecido com os 3% do PARA de 2015.

A matéria da BBC News Brasil levanta ainda a possibilidade de que estejamos usando LMRs muito acima do aceitável: “de acordo com o atlas, o limite máximo de resíduos permitido em alguns alimentos no Brasil chega a ser 400 vezes superior ao da União Europeia”. O referido atlas é uma publicação da professora Larissa Bombardi, onde ela alega que há diferenças em alguns LMRs adotados no Brasil e na União Europeia. Não consegui achar as fontes necessárias para verificar essa alegação. Supondo que haja de fato tal discrepância, o primeiro a notar é que, como vimos acima, resíduos acima do LMR nem sempre apresentam riscos. Segundo, a análise de risco agudo feita pelo PARA usou como parâmetro a Dose de Referência Aguda (DRfA) que “é a quantidade estimada do resíduo de agrotóxico presente nos alimentos que pode ser ingerida durante um período de até 24 horas, sem causar efeito(s) adverso(s) à saúde” (pág. 106). E esses parâmetros são os mesmos empregados pela União Europeia ou entidades reconhecidas:

As DRfA foram obtidas a partir da base de dados de resíduos disponibilizada publicamente no sítio eletrônico da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (European Food Safety Authority – EFSA). Para os ingredientes ativos que encontravam-se sem informações a respeito do risco dietético agudo, os valores de DRfA foram obtidos a partir das referências de outras entidades internacionalmente reconhecidas, como JMPR/FAO/OMS (pág. 109).

Como o risco agudo avaliado foi extremamente baixo, o único risco potencial oriundo de LMRs mais elevados que o recomendado seria o crônico. Dado que o PARA é um documento de qualidade técnica considerável (muito superior ao material produzido pelos grupos anti-pesticidas, como veremos em seguida) e ele não levanta nenhuma suspeita nesse sentido, me parece sensato concluir que não há razão suficiente para preocupação.

Outra pista importante de que não há motivo para alarde é a análise feita pela União Europeia dos produtos importados do Brasil. O gráfico abaixo (pág. 53) mostra que a UE analisou os resíduos em uma amostra considerável de produtos nacionais, e também de outros países fora da UE.

BrazilEUExportPage53

Os resultados mostram que apenas 4.5% das amostras brasileiras continham resíduos acima dos LMRs europeus, muito perto dos Estados Unidos (3.8%) e não muito diferente dos 3% encontrados pela Anvisa. Pode-se ainda ver que o Brasil é um dos melhores países em porcentagem de amostras dentro dos LMRs europeus, perdendo apenas para a África do Sul, Chile e Colômbia (pág. 58):

BrazilEUMRLPage58

No entanto é muito provável que os produtos analisados pela UE não sejam exatamente os mesmos analisados no PARA. Por isso seria bom se a Anvisa clarificasse se há ou não discrepância com alguns LMRs e, em caso afirmativo, porquê.

Outro ponto importante a considerar é que as fontes usadas para embasar a crítica aos pesticidas estão bem longe de ser relatórios científicos. No Atlas de Larissa Bombardi, fonte principal da matéria da BBC, há uma sessão de 40 páginas intitulada “Fio de Ariadne – uma reflexão sobre o arquétipo feminino e o uso de agrotóxico na agricultura” onde podemos encontrar reflexões como essas:
FioDeAriadne1

FioDeAriadne

O relatório produzido pela ABRASCO, fonte dos dados da matéria do El País, nega o princípio básico da toxicologia de que é a dose que faz o veneno e se refere ao LMR como parte de uma suposta “retórica da ocultação”, em uma clara demonstração de quimiofobia na página 29:

ABRASCO1

Em outra parte intitulada “conhecimento científico e popular: construindo a ecologia de saberes” a ABRASCO declara também seu desdém pela quantificação e neutralidade científica, adotando a linha relativista pós-moderna:
ABRASCO2.png

O documento produzido pelo movimento “agrotóxico mata” poderia ser melhor descrito como um panfleto político-ideológico, como mostram as seguintes passagens:

Com a confirmação do golpe, no início de setembro, e a instauração do governo ilegítimo, a bancada ruralista pode “nadar de braçada” principalmente para retroceder a legislação do campo de forma ampla…” (pág. 3)

Temos clareza do desafio que tem sido e será fazer oposição a PL 3200, principalmente com este governo Golpista e um Congresso Nacional reacionário que visa se seguir o retrocesso na pauta dos agrotóxicos. No entanto também temos a certeza de que a questão dos agrotóxicos ainda é uma das maiores contradições deste modelo do agronegócio, se alimentar se envenenando é algo que assusta a população. (pág. 11)

Reitero que não conheço o suficiente para julgar as minúcias da PL em questão. É possível que hajam pontos negativos ou que poderiam ser melhorados. Seria ótimo ouvir a opinião de especialistas que entendessem tanto da ciência toxicológica quanto dos trâmites legais envolvidos. A campanha “lei do alimento mais seguro” e o “conselho científico agro sustentável” parecem esforços nesse sentido, mas estes são tratados com suspeita pelos críticos, como faz o El País ao afirmar que eles “rebatem fatos apresentados pela ciência, como o de que os agrotóxicos causam doenças e contaminam rios e lençóis freáticos” (ênfase minha). Contudo, a minha própria investigação aqui tende a corroborar muito dos argumentos que eles apresentam, e a desbancar a maioria dos apresentados pelo El País. Um argumento na campanha em defesa da PL é que ela vai agilizar o processo de avaliação e registro de novos pesticidas. Não sou competente para julgar se ela vai ou não, mas se é verdade que, como o El País e a BBC afirmam, o processo atual demora de 4 a 8 anos então realmente algo precisa mudar. Assim como ocorre na medicina, e os pesticidas são basicamente remédios para plantas, novas descobertas tendem a ser mais eficazes e seguras que as antigas. Se o Brasil precisa esperar 8 anos para usar novos químicos estamos potencialmente nos expondo a riscos de saúde e perdas nas colheitas desnecessários.

Mas o que considero mais alarmante nessa história toda é que veículos de mídia grandes como o El País e a BBC tenham dado tanto espaço a narrativas claramente anti-científicas. O El País não parece nem ter feito o trabalho mínimo de checagem da informação ao reproduzir o dado enganoso sobre a suposta “contaminação” dos alimentos que expus acima. Também decepciona ver páginas de divulgação científica nas redes sociais se deixando levar mais pelo que acredito ser ideologia política do que pela análise imparcial dos fatos. O objetivo deveria ser despolitizar o máximo possível discussões como essas para que alianças tribais não ofusquem a tomada de decisões racional.

 

 

Anúncios

9 Respostas to “O medo irracional dos pesticidas”

  1. Fernando Antonio Guariento 04/07/2018 às 11:21 #

    Eu planto parte de minha comida e não uso uma gota de veneno. Já estudei permacultura e agrofloresta e quem entende esse tipo de alternativa para as monoculturas e grandes produções sabe que não existe “medo irracional” nenhum, o que existe é uma grande ignorância da população em todos os aspectos. O dossie da abrasco tem muita informação boa, acredito que você deveria deixar o link para os leitores lerem e tirarem suas próprias conclusões, a forma que vocês expuseram algumas informações ficou foi muito tendêncioso. E por fim, nós devemos caminhar para autonomia e parar de ter tanta dependencia dessas coorporações lineares e que vem em seu amago carregando a essencia do ego destrutivo na sociedade, o compartilhamento será o futuro e não esse monopólio infantil que sempre gera problemas para todos.
    Obs: Você esqueceu de explicar que a maior parte de toda essa “produção necessária”, vai para alimentar gado e não humanos.
    Obs2: Divulguem para as pessoas saberem o que é a Moringa Oleífera, nós a plantamos e consumimos em casa a muito tempo e tem sido muito bom para todos.

    • André Luzardo 04/07/2018 às 11:51 #

      Fernando, o link para o dossiê da ABRASCO está no post.

    • Thomas 05/07/2018 às 00:18 #

      Permacultura, agrofloresta e outras formas de agricultura integradas ao ecossistema natural são todas praticadas com seriedade e afinco. No entanto, ainda que seus praticantes aleguem o contrário, não existem evidências de que seriam suficiente para produzir alimentos na quantidade necessários para alimentar 9 bilhões de almas em todo mundo no ano de 2030. Para tanto, precisaríamos alterar toda dinâmica econômica e social do mundo, o que significaria uma mudança muito mais radical do que meramente mexer no modelo agrícola atual. Não me parece factível que isso aconteça nas próximas décadas. Devemos nos lembrar que existem diferentes geografias no globo e nem todas seriam aptas aos modelos propostos e, portanto, continuariam dependentes da importação de calorias para o seu sustento e da sua prole. Vejamos: no Brasil podemos produzir no ambiente de agrofloresta, e não vou entrar no mérito da produtividade e quantidade, mas os povos que vivem em ambientes desérticos, montanhosos, alagados, salinos, pedregosos, gelados e urbanos, entre outros, certamente viveriam desafios mais complicados. É aí que entra a agricultura tradicional, com seu agroecossistema particular, impulsionado pela ciência e pela tecnologia capaz de produzir em quantidade e qualidade para atender a demanda mundial. Fazer permacultura é uma opção, mas querer impor esse sistema para o mundo todo negligenciando o tamanho e diversidade da população mundial é, no mínimo, temerário. Existem muitos pontos de melhoria para a agricultura mas, bem ou mal, foi ela que trouxe a humanidade até aqui.

  2. arlindo 04/07/2018 às 17:57 #

    A serviço de quem foi produzido este artigo?

  3. fgsdf 04/07/2018 às 22:49 #

    Quem escreveu isso aí deve ser de família de agricultores, ou está ganhando pra isso.

  4. Victor 05/07/2018 às 10:38 #

    Parabéns pela análise

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: